E “sereis como Deus”. Essas palavras foram aos ouvidos de Eva como favos de mel ao paladar. Uma isca perfeita. Discreta e desejável. Não poderíamos esperar menos de Lúcifer. Ele sabia por experiência própria o fascínio que a idéia de ser Deus podia produzir. Se um anjo poderoso e privilegiado como ele fora por ela fascinado, o que dizer de seres inferiores? Infelizmente, Eva também não resiste e sucumbe à atraente proposta de Satanás.O desejo que levou o primeiro casal à queda é um dos legados mais nefastos da miséria humana transmitido à raça. Está incrustada em seu coração e alimenta a alma. Desde o Éden, a essência do pecado consiste na tentativa de se viver tão independente de Deus quanto possível. Consiste em quebrar qualquer amarra que prenda o indivíduo a um ser superior que “espreita” suas criaturas dia e noite. Calvino menciona um dizer antigo que diz que todo homem tem dentro de si a alma de um rei (1 Peter 5.5). O homem busca o máximo da independência de modo que possa servir e agradar somente a si mesmo.
Pecado é um estado que conduz a uma atitude de orgulho auto-exaltado. Uma tentativa perene de auto-deificação. O pecado é a imagem e semelhança de Satanás (cf. 1 Tm 3.6).
A idéia de “ser como Deus” é atraente não apenas pela possibilidade de uma independência volitiva e moral, mas também pela idéia de se extrapolar o nível do natural elevando-se ao sobrenatural ou sobre-humano. Enquanto ente sujeito às leis naturais do mundo criado, o homem está preso às amarras do tempo e da matéria. A auto-deificação expressa o desejo de se sobrepujar as limitações naturais do ser e penetrar o mundo dos “deuses”. Esta é a independência plena: a quebra de qualquer limitação natural.
Este velho desejo de “ser como Deus” está no coração da Teologia da Prosperidade. Para essa onda teológica (hesito em chamá-la de teologia - talvez alguma qualificação como “teologia de segunda”, ou “teologia espúria” seja melhor), o ser humano não pode adoecer, não pode passar por privações materiais, não pode experimentar a tristeza, não pode perder uma batalha espiritual, ou seja, o ser humano precisa “ser como Deus”.
A Teologia da Prosperidade intenta destronar o Deus Criador e colocar a criatura em seu lugar. Ela ensina aos homens a dar ordens a Deus e a determinar o que este deve ou não fazer. Com isso dizem que são mais sábios do que Deus em suas decisões. Fazem de Deus um servo que está sempre pronto para servi-los. Posso até imaginar como satanás está orgulhoso com o sucesso de uma investida tão antiga. Basta um pequeno estímulo, como a sugestão de “ser como Deus”, para o homem extravasar todo o orgulho que corre em suas veias.
“E sereis como Deus”. Essa é a proposta da Teologia da Prosperidade esposada por tantos pastores midiáticos e que tem angariado tantos adeptos no Brasil e no mundo. No entanto, não há nada novo nisso tudo. Estão apenas plagiando um velho “deus” frustrado que insiste em brincar de Deus.
Soli DEO Gloria.
P.S.: Essa pequena reflexão é o extrato de um papo teológico (de um dos tópicos, ao menos) agradabilíssimo com os pastores Aureo Rodrigues, reitor do Seminário Presbiteriano de Fortaleza e José Rafael, colega de labuta na comunidade na qual ministramos.
P.S. 2: Sugiro ainda a leitura de ROMEIRO, Paulo. Super Crentes. 2ª Edição. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2007.




