sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um Templo ou um Teatro?

"Os homens parecem nos dizer: “Não há qualquer utilidade em seguirmos o velho método, arrebatando um aqui e outro ali da grande multidão. Queremos um método mais eficaz. Esperar até que as pessoas sejam nascidas de novo e se tornem seguidores de Cristo é um processo demorado. Vamos abolir a separação que existe entre os regenerados e os não-regenerados. Venham à igreja, todos vocês, convertidos ou não-convertidos. Vocês têm bons desejos e boas resoluções: isto é suficiente; não se preocupem com mais nada. É verdade que vocês não crêem no evangelho, mas nós também não cremos nele. Se vocês crêem em alguma coisa, venham. Se vocês não crêem em nada, não se preocupem; a ‘dúvida sincera’ de vocês é muito melhor do que a fé”. Talvez o leitor diga: “Mas ninguém fala desta maneira”. É provável que eles não usem esta linguagem, porém este é o verdadeiro significado do cristianismo de nossos dias. Esta é a tendência de nossa época. Posso justificar a afirmação abrangente que acabei de fazer, utilizando a atitude de certos pastores que estão traindo astuciosamente nosso sagrado evangelho sob o pretexto de adaptá-lo a esta época progressista. O novo método consiste em incorporar o mundo à igreja e, deste modo, incluir grandes áreas em seus limites. Por meio de apresentações dramatizadas, os pastores fazem com que as casas de oração se assemelhem a teatros; transformam o culto em shows musicais e os sermões, em arengas políticas ou ensaios filosóficos.

Na verdade eles transformam o templo em teatro e os servos de Deus, em atores cujo objetivo é entreter os homens. Não é verdade que o Dia do Senhor está se tornando, cada vez mais, um dia de recreação e de ociosidade; e a Casa do Senhor, um templo pagão cheio de ídolos ou um clube social onde existe mais entusiasmo por divertimento do que o zelo de Deus? Ai de mim! Os limites estão destruídos, e as paredes, arrasadas; e para muitas pessoas não existe igreja nenhuma, exceto aquela que é uma parte do mundo; e nenhum Deus, exceto aquela força desconhecida por meio da qual operam as forças da natureza. Não me demorarei mais falando a respeito desta proposta tão deplorável".


Por Charles H. Spurgeon

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Adoração de Fachada - Amós 5.21-27

Não sou da escola positivista, mas tenho fortes motivos para acreditar que alguns acontecimentos históricos se repetem. Vivemos um tempo marcado por muitos elementos dos dias de Amós. Principalmente no que diz respeito a uma espiritualidade caracterizada por ritos pagãos cada vez mais enraizados na adoração cristã e a hipocrisia de se sacrificar a Deus em meio à indiferença social. Essas, o paganismo crescente e a injustiça social, foram duas das ênfases mais fortes da denúncia profética do boieiro que se tornou profeta.

O profeta usa verbos fortes como “aborreço”, “desprezo” (v. 21), “não me agradarei delas”, para expressar a repulsa de Deus à adoração de seu povo. O Senhor não consegue sentir o cheiro dessa adoração fingida e destituída de espírito. Ele não aceitava o sacrifico deles, uma vez que a verdadeira adoração deve começar no coração dos adoradores. Os israelitas transformaram a adoração em mero ritualismo e o faziam quase que mecanicamente. Achavam que se cumprissem as exigências externas da adoração Deus ficaria satisfeito. Porém, não adianta um sacrifício externo quando o interior está cheio de pecado (cf. Sl 51.16, 17).

Em seguida, o profeta faz duas advertências, uma negativa (v. 23) e outra positiva (v. 24). Negativamente, Deus exige que parem as expressões de adoração mais fervorosas, a música. Ele não suporta ver uma adoração fingida que se alegra em meio ao pecado. Quando tudo estava mal, esses falsos adoradores adoravam a Deus com alegria. Deus estava muito irado, a ponto de proibir algo que muito lhe agrada (cf. Sl 33.2, 3). Positivamente, Deus exige que a adoração seja acompanhada de justiça (v. 24). Sem este elemento não há verdadeira adoração. A adoração verdadeira é fruto de uma constante vida de serviço fiel e devoto a Deus, que expressa na prática aquilo que se é por dentro. O caminho percorrido pela adoração não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ela flui de um coração puro e regenerado por Deus. Aqueles que procuram adorar o nome de Deus devem ser aqueles que honram o caráter de Deus tanto em palavras como em ações.

Estou cansado de ver “cristãos” professos com suas mãos erguidas em adoração no templo enquanto na rua e nos negócios são velhacos, trapaceiros, mentirosos, subornadores, sonegadores e briguentos. Em casa, são péssimos maridos, grosseiros e desamorosos, ou péssimas esposas, rixosas e tolas, ou péssimos filhos, desobedientes e respondões, mas na companhia da igreja aparentam piedade e devoção. Não posso crer que Deus se agrade das mãos erguidas e dos clamores “apaixonados” daqueles que não se dispõem, antes, a descer à cruz de Cristo em piedade autêntica e íntima. Os escândalos dos evangélicos (seja em nível nacional ou local) se multiplicam à proporção em que esta igreja criada no berço da mídia e dos empresários da fé aumenta.

Além disso, à semelhança dos israelitas dos tempos de Amós, temos nossa própria dose de paganismo. O misticismo católico romano misturado com as crenças africanas incrustada no povo brasileiro introduziu o apresso a relíquias sagradas, superstições e os cultos que mais parecem uma expressão religiosa da umbanda ou alguma outra religião afro-brasileira. A pureza e simplicidade do culto cristão foram substituídas por elementos pagãos de modo a formar uma nova expressão religiosa sincrética. Enquanto nos perdemos nesse sincretismo, os “profetas” da terra cantam sobre a “geração do avivamento” e reúnem multidões com suas promessas de “chuvas de bênçãos”. Talvez seja mais sábio chorar clamando por misericórdia ao ouvir: “Desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer [...] Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Am 5.21, 24).

No caso de Amós, a solução foi o cativeiro. Talvez estejamos em um nível tal que seja necessária uma ação drástica como aquela.


Que Deus nos ajude.