sábado, 21 de março de 2009

Declaração de Savoy de Fé e Ordem

O texto a seguir estará presente em uma posterior publicação integral da Declaração de Savoy em português. Tive a honra de participar de sua tradução e apresentação. É bem verdade que essa versão chega com cerca de 150 anos de atraso. Porém, sem evitar o clichê, antes tarde do que nunca. Para conferir o original em inglês, clique aqui.


A história dos congregacionalistas (ou independentes) ingleses foi marcada por sucessivos reveses. Em meio a altos e baixos, o movimento puritano experimentou um curto período de ascendência e certa estabilidade durante o Protetorado de Oliver Cromwell (1653-1658). Cromwell liderou com destreza a unidade de cavalaria (Ironsides) do exército do Parlamento Inglês contra o exército do rei Carlos I durante a Guerra Civil de 1642. Após a execução do rei em 1649, Cromwell ganhou ascendência política e em 1653 dissolveu o parlamento republicano se tornando, efetivamente, um ditador militar, com o título de Lord Protector. Título que manteve até sua morte em 1658.

Cromwell tinha convicções congregacionalistas. Devido a suas convicções, ele promoveu um sensível fortalecimento do protestantismo inglês. Em um de seus atos, ele instituiu uma comissão de examinadores para avaliar a capacidade dos aspirantes ao ministério. Isto contribuiu diretamente para a formação de pregadores capazes e sérios que enchiam a Inglaterra. Nas palavras de Philip Schaff: “Em sua política externa, Cromwell foi o mais destemido protetor do protestantismo e da liberdade religiosa que a Inglaterra já produziu” (Creeds of Christendom, V. I, p. 744). O governo de Cromwell foi marcado pela tolerância religiosa. No entanto, é preciso ressaltar que essa tolerância era parcial. Incluía em seu bojo apenas o puritanismo e algumas facções protestantes consideradas genuínas, enquanto cerrava os olhos para os romanistas, socinianos e episcopais.

A idéia de se organizar uma confissão de fé que trouxesse uma relativa uniformidade ao movimento puritano independente da Inglaterra surge neste momento de favorecimento político do congregacionalismo. A princípio, Cromwell reluta com essa idéia. Porém, pouco antes de sua morte ele anuncia seu consentimento. O passo seguinte foi dado pelo secretário do Conselho de Estado que convocou todas as igrejas congregacionais de Londres e seus arredores para se reunirem no Palácio de Savoy. A Conferência foi realizada durante os dias 20 de Setembro e 12 de Outubro de 1658, em reuniões diárias, contando com a presença de cerca de duzentos delegados de cento e vinte congregações.

Um de seus líderes mais destacados era John Owen, considerado por alguns “o maior dos teólogos puritanos” (e. g., PACKER, John. Entre os gigantes de Deus, p. 87). Entretanto, a comissão de composição da Declaração de Savoy ainda reunia homens como Goodwill, Nye, Bridge, Caryl, e Greenhill. A conferência se propôs a utilizar a Confissão de Fé de Westminster, de escopo calvinista e presbiteriano, introduzindo algumas modificações de modo a substituir os elementos da eclesiologia presbiteriana por uma eclesiologia congregacional. Outras mudanças foram feitas à medida que percebiam a necessidade. O resultado foi uma confissão de fé calvinista com uma plataforma eclesiológica congregacional.

Após quase 153 anos de congregacionalismo em terras tupiniquins, finalmente é apresentada ao povo congregacional brasileiro uma tradução de sua mais antiga e importante confissão de fé, a Declaração de Savoy de Fé e Ordem. O nome se deve à sua associação histórica com o Palácio de Savoy, no Strand, Londres, onde foram sediadas as várias reuniões da comissão responsável por sua elaboração.

A Declaração de Savoy vem a lume em tempo oportuno. Quero destacar apenas dois de seus benefícios. Um geral e outro particular.

Primeiro, de modo geral, uma confissão de fé como a Declaração de Savoy vem realçar a importância da verdade proposicional das Escrituras Sagradas em um tempo de confusão epistemológica. O pós-modernismo trouxe em seu arcabouço filosófico os conceitos de relativismo e pluralismo. Para o homem pós-moderno, não existem absolutos. Uma vez que a verdade é subjetiva e individual, a tolerância é a atitude ideal.

Mais uma vez, a igreja se vê em um momento histórico onde não consegue filtrar o que absorve do meio onde está inserida. O pensamento pós-moderno tem invadido os arraiais protestantes e sua influência é sentida em várias frentes. A tolerância almejada não significa apenas respeitar o diferente, mas celebrar a diferença como algo bom e necessário diante de uma realidade multifacetada. No Brasil, o protestantismo tem sido capaz de dialogar amigavelmente com os mais diferentes sistemas teológicos e filosóficos. Práticas pagãs, misticismo católico medieval, Teologia da Prosperidade, são alguns dos elementos desse protestantismo sincrético e tolerante.

Nossa única regra de fé e prática é a Bíblia. No entanto, as confissões de fé, entendidas como elaborações teológicas de homens comprometidos com as Escrituras Sagradas, apontam para as verdades fundamentais do Cristianismo reveladas nas Escrituras, se opondo frontalmente ao conceito pós-moderno de verdade. Expondo as doutrinas bíblicas como verdades proposicionais reveladas e absolutas, elas anulam a possibilidade de uma tolerância fruto da falta de convicções. A adoção de um manual básico de teologia, como Savoy, permite a conservação da sã doutrina e sua defesa ante modismos teológicos.

Segundo, de modo mais particular, a Declaração de Savoy traz a possibilidade de se colocar como a base sobre a qual é possível produzir uma maior uniformidade denominacional. No Brasil, é praticamente impossível pintar um quadro realista do congregacionalismo como denominação. Há muito perdemos a nossa identidade devido à falta de uniformidade teológica que, conseqüentemente, gerou diferentes manifestações litúrgicas conflitantes com os princípios congregacionalistas. Quem são os congregacionais brasileiros? O que eles pensam? Quais são seus fundamentos doutrinários? Não há resposta. Em algum momento, perdemos o fio histórico que nos liga aos congregacionais ingleses. Talvez, um século e meio de desatenção à nossa principal confissão de fé nos forneça alguma pista do que aconteceu. A Declaração de Savoy em português vem suprir essa deficiência e, esperamos em Deus, nos estimular a começar a reconstrução de nossa identidade.


Sola Scriptura.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tudo, Alguma Coisa ou Nada

É comum recebermos no gabinete pastoral irmãos com os mais diferentes tipos de problemas e dores. Estes envolvem as diferentes esferas de relacionamentos, como família, trabalho e igreja, problemas de saúde, crises emocionais, enfim, a lista é quase inexaurível. Essas pessoas vêm em busca de alívio para suas cargas. Procuram uma solução para seus infortúnios. O que dizer para essas pessoas? Como ajudá-las?

A praxe de nossos dias é prometer soluções rápidas e eficazes aos doridos. Restituição completa e imediata de tudo o que foi perdido, curas maravilhosas, milagres fabricados por palavras de comando a Deus, extinção de toda e qualquer dor, etc. Essa tendência revela o caráter pragmático e utilitarista do evangelicalismo brasileiro. Muitos buscam aquilo que funciona e lhes é útil. “Se esse Deus pode fazer tudo isso por mim, por que não querê-lo?”, é uma conclusão inevitável.

Entristeço-me profundamente em face da cegueira bíblica e histórica de nossos dias. Às vezes, sinto-me vivendo sob a atmosfera medieval, onde a Bíblia era negada aos leigos e o conhecimento pertencia a alguns poucos. Em nosso tempo, fazemo-nos mais “medievais” que a população medieval européia. Eles, ao menos, eram privados do acesso à Bíblia e ao conhecimento, enquanto nós vivemos na era da informação, com acesso vasto e livre a elas, e deliberadamente ignoramos tanto um como o outro.

Somos uma geração tola por opção, que prefere a sorte dos néscios. Isso custa caro. A ignorância bíblica e histórica usurpa do homem as bases para um julgamento acertado em termos de certo e errado. Assim, são vendidas falsificações espúrias do verdadeiro evangelho às massas que as consomem avidamente. Destaco aqui o exemplo desse evangelho triunfalista e prodigioso, marcado pelo pragmatismo e utilitarismo, que promove uma mensagem voltada essencialmente para o bem-estar do homem às custas da Soberania de Deus.

À luz da experiência, da história e, especialmente, da Palavra de Deus, é inevitável a conclusão de que Deus trata os casos de desventuras do ser humano, no mínimo, de três formas bem diferentes em sua superfície. Em um caso, Deus pode mudar radicalmente todo o quadro do indivíduo. Este se vê livre de tudo o que o perturbava. Em um segundo caso, Deus pode mudar apenas parcialmente a situação. O indivíduo é aliviado de parte de suas cargas e recebe auxílio para suportar as demais. Em um terceiro caso, no entanto, Deus pode não mudar coisa alguma. Neste ponto encontra-se o maior problema para a mentalidade imediatista e pragmática de nosso tempo.

Lemos em 2 Coríntios 12.9 as palavras de Deus a Paulo em resposta às suas orações insistentes. Paulo suplicara por três vezes a Deus afim de que Ele o livrasse de seu “espinho na carne”. O fato é que a resposta de Deus estarrece o evangélico de nossos dias. Deus simplesmente diz não ao apóstolo, acrescentando: “a minha graça te basta. Porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Paulo foi advertido de que Deus não o livraria do seu problema. Ele aprenderia na prática que a graça de Deus é mais valiosa do que o bem-estar físico humano – e com isso não estou dizendo que não podemos almejá-lo.

Quando Pedro fez questão de lembrar a Jesus que ele e os demais discípulos haviam deixado tudo para segui-lo, Jesus também fez questão de lembrá-lo de que eles fizeram, na verdade, uma troca. Eles sacrificaram um tanto para receber cem vezes mais (cf. Lc 18.28-30). O que o Mestre estava ensinando aos seus discípulos era que Ele é suficiente para suprir todas as suas necessidades. Ainda que eles tivessem perdido tudo, não haviam perdido nada, porque Cristo lhes era tudo o que precisavam para sua satisfação. O sacrifício cristão é abandonar algo de somenos importância para receber um tesouro de valor incalculável.

Deus pode mudar tudo, algumas coisas ou nada. O objetivo de Deus em cada uma de suas decisões soberanas é um só: o bem de seus filhos. À sua forma e gerida por Deus, tanto a completa reversão de uma situação específica como sua continuidade, contribui para o bem daqueles que O amam (Rm 8.28). Ao ultrapassar o nível da superficialidade é possível perceber que as formas de Deus tratar seu povo são diferentes apenas em seus modos, nunca em seus fins.

A graça de Deus basta! Precisamos entender e viver essa verdade. Alguns só conseguem amar a Deus em face do que Ele pode proporcionar. Se Deus não os cura ou não lhes confere prosperidade financeira, também não lhes serve. Estes amam e servem ao Senhor enquanto lhes for útil. Porém, Deus é soberano. Ele faz o que Lhe agrada. Ele pode curar completamente, assim como pode ajudar o indivíduo a suportar a enfermidade em sua continuidade. Ele pode reverter radicalmente todo o quadro, assim como pode deixá-lo como estar – quem sabe intensificá-lo – e conceder a graça suficiente para que se suporte este momento extraindo dele o máximo e benefícios espirituais (cf. Mt 5.11-12; Jo 16.33; 2 Co 4.7-15; Tg 1.2-4, 12; 1 Pe 1.6-7). E pasme! Tanto em um como noutro caso, é o amor de Deus que impulsiona seus atos soberanos.

John Piper atinge o cerne da questão ao dizer que “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nEle” (PIPER, John. Em busca de Deus, p. 240). Antes de orarmos pedindo para que Deus nos livre de nossas dores, precisamos rogar para que Ele nos faça mais satisfeitos nEle, independente da situação. É preciso ter a capacidade de amá-lo no meio do nada desse mundo. No meio da tribulação e da adversidade é onde podemos avaliar o quanto amamos a Deus e não os bens que ele pode nos dar. Ele sozinho é suficiente da vida até o fim. Ou você precisa de algo mais?



Soli Deo Gloria.