O movimento protestante do século 16 carrega em seu nome o sentimento que lhe permitiu nascer: o sentimento protestante. Este sentimento marcou a vida de personagens que dedicaram suor e sangue às causas em que acreditavam e defendiam. Foi assim com John Huss, John Wycliffe, Lutero, e tantos outros “ilustres desconhecidos”. No limiar de transformações históricas tão abrangentes e marcantes, estes homens protestaram contra o abandono dos fundamentos neotestamentários por parte da igreja oficial e o status quo, em grande parte, alimentado por ela.O protesto marcou o começo e deve caracterizar o presente. Somos um povo chamado ao não-conformismo. Desde o Sermão da Montanha a ordem é para vivermos na “contra-cultura” do mundo. Paulo nos adverte a não nos conformarmos a este presente mundo mal (Rm 12.2). E porque o protesto está na essência da vida cristã, não é anacronismo aplicar a expressão “protestantes” à igreja atual. Aliás, a falta de protesto é uma das marcas do fracasso evangélico brasileiro.
Temos muito a protestar. Então, resolvi começar o ano publicando alguns protestos pessoais. Tentarei resumi-los em algumas poucas frentes sem observar nenhuma disposição lógica. Certamente, muitos protestos importantes e observações relevantes ficarão de fora. O leitor pode complementar a lista, caso deseje.
1. Protesto contra o silêncio dos evangélicos nas discussões de âmbitos sociais, políticos e econômicos de nosso país.
2. Protesto contra a inércia da Igreja frente aos desafios sociais de nossa sociedade desigual e preconceituosa. Os extremos teológicos e as práticas mal-intencionadas de alguns não podem servir de pretextos para o nosso não engajamento.
3. Protesto contra a artificialidade da maior porção do evangelicalismo brasileiro que vive e proclama um evangelho inclusivista da graça barata. Nesta artificialidade brotaram as raízes da falta de moral, da ética e o abandono das verdades fundamentais do cristianismo bíblico.
4. Protesto contra a banalização do ministério pastoral no Brasil, onde qualquer um pode ordenar (ou mesmo se auto-ordenar) qualquer outro ao sagrado ministério. Assim, é multiplicado o número de “pastores” mercenários, empresários da fé e picaretas que, por não serem capazes de exercer nenhuma outra profissão (ou por vislumbrarem maiores lucros no comércio religioso), se aproveitam da boa-fé e ignorância do povo, acumulando por onde passam a má fama de velhacos, briguentos, desonestos, ladrões, promíscuos e levianos, pela qual pagam os verdadeiros vocacionados.
5. Protesto contra os púlpitos vendidos à psicologizações, teorias freudianas, mensagens de auto-ajuda, marketings e excentricidades de personalidades midiáticas.
6. Protesto contra a pobreza musical e poética dos evangélicos brasileiros. São tantas músicas ruins lançadas diariamente que já é difícil selecionar algo relevante para se ouvir.
7. Protesto contra a enxurrada de músicas evangélicas que não dizem nada e, portanto, não acrescentam nada à vida cristã, mantendo-se assim abaixo da dignidade do Deus a quem pretendem exaltar. São muitas as canções produzidas para se vender, ao invés de objetivarem adorar a Deus e ensinar verdades. Hoje, canção evangélica vendável precisa falar de “vento”, “chuva”, “água”, “fogo”, “vitória”, “restituição”, “restauração” e outros chavões da moda.
8. Protesto contra a mercantilização da fé evangélica. O cristianismo do Senhor que não tinha onde reclinar a cabeça se tornou a mina de ouro e fonte de poder dos já magnatas evangélicos e moeda de troca das camadas de baixo da comunidade evangélica.
9. Protesto contra os pastores da mídia e artistas evangélicos que estão enriquecendo às custas do povo brasileiro já tão sofrido. Alguns deles cobram fortunas para exercerem seus “ministérios” em outras igrejas e para suas apresentações. Isso é ministério? Não para Paulo (cf. 1 Co 9.18).
10. Protesto contra a desonestidade de liberais que não pregam em suas igrejas o que ensinam na academia. Fazem isso ou por medo de perderem o emprego ou por saberem que a teologia que lecionam mataria sua igreja.
11. Protesto contra a enxurrada de novos seminários teológicos que são abertos com fins unicamente lucrativos. Eles exigem o mínimo dos alunos e têm muito pouco a oferecer a nível acadêmico. São meios de se conseguir um diploma fácil com uma carga horária diminuta. O resultado disso são pastores e professores de teologia despreparados. “Teólogos” de cabeças ocas devidamente reconhecidos pelo MEC.
12. Protesto contra os seminários teológicos confessionais que não buscam se enquadrar às exigências do MEC. No geral, são de alto nível teológico e acadêmico, mas privam seus alunos do reconhecimento sob as leis do Estado.
13. Protesto contra as igrejas que “matam” seus pastores sobrecarregando-os de atividades e desviando-os de seu chamado à Palavra e à Oração.
14. Protesto contra os pastores que “matam” suas igrejas privando-as de uma pregação expositiva fiel às Escrituras e de um pastorado regado a oração e amor. Elas morrem de inanição espiritual.
15. Protesto contra meus próprios pecados. Não me conformo em ser como sou. Viverei sob a hipótese de ser possível atingir a plenitude da santidade ainda nesta vida.
16. Protesto contra cada um desses protestos, caso não sirvam a mim e aos leitores como um incentivo a lutar pela inversão das realidades que eles pretendem denunciar.





