É comum recebermos no gabinete pastoral irmãos com os mais diferentes tipos de problemas e dores. Estes envolvem as diferentes esferas de relacionamentos, como família, trabalho e igreja, problemas de saúde, crises emocionais, enfim, a lista é quase inexaurível. Essas pessoas vêm em busca de alívio para suas cargas. Procuram uma solução para seus infortúnios. O que dizer para essas pessoas? Como ajudá-las?A praxe de nossos dias é prometer soluções rápidas e eficazes aos doridos. Restituição completa e imediata de tudo o que foi perdido, curas maravilhosas, milagres fabricados por palavras de comando a Deus, extinção de toda e qualquer dor, etc. Essa tendência revela o caráter pragmático e utilitarista do evangelicalismo brasileiro. Muitos buscam aquilo que funciona e lhes é útil. “Se esse Deus pode fazer tudo isso por mim, por que não querê-lo?”, é uma conclusão inevitável.
Entristeço-me profundamente em face da cegueira bíblica e histórica de nossos dias. Às vezes, sinto-me vivendo sob a atmosfera medieval, onde a Bíblia era negada aos leigos e o conhecimento pertencia a alguns poucos. Em nosso tempo, fazemo-nos mais “medievais” que a população medieval européia. Eles, ao menos, eram privados do acesso à Bíblia e ao conhecimento, enquanto nós vivemos na era da informação, com acesso vasto e livre a elas, e deliberadamente ignoramos tanto um como o outro.
Somos uma geração tola por opção, que prefere a sorte dos néscios. Isso custa caro. A ignorância bíblica e histórica usurpa do homem as bases para um julgamento acertado em termos de certo e errado. Assim, são vendidas falsificações espúrias do verdadeiro evangelho às massas que as consomem avidamente. Destaco aqui o exemplo desse evangelho triunfalista e prodigioso, marcado pelo pragmatismo e utilitarismo, que promove uma mensagem voltada essencialmente para o bem-estar do homem às custas da Soberania de Deus.
À luz da experiência, da história e, especialmente, da Palavra de Deus, é inevitável a conclusão de que Deus trata os casos de desventuras do ser humano, no mínimo, de três formas bem diferentes em sua superfície. Em um caso, Deus pode mudar radicalmente todo o quadro do indivíduo. Este se vê livre de tudo o que o perturbava. Em um segundo caso, Deus pode mudar apenas parcialmente a situação. O indivíduo é aliviado de parte de suas cargas e recebe auxílio para suportar as demais. Em um terceiro caso, no entanto, Deus pode não mudar coisa alguma. Neste ponto encontra-se o maior problema para a mentalidade imediatista e pragmática de nosso tempo.
Lemos em 2 Coríntios 12.9 as palavras de Deus a Paulo em resposta às suas orações insistentes. Paulo suplicara por três vezes a Deus afim de que Ele o livrasse de seu “espinho na carne”. O fato é que a resposta de Deus estarrece o evangélico de nossos dias. Deus simplesmente diz não ao apóstolo, acrescentando: “a minha graça te basta. Porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Paulo foi advertido de que Deus não o livraria do seu problema. Ele aprenderia na prática que a graça de Deus é mais valiosa do que o bem-estar físico humano – e com isso não estou dizendo que não podemos almejá-lo.
Quando Pedro fez questão de lembrar a Jesus que ele e os demais discípulos haviam deixado tudo para segui-lo, Jesus também fez questão de lembrá-lo de que eles fizeram, na verdade, uma troca. Eles sacrificaram um tanto para receber cem vezes mais (cf. Lc 18.28-30). O que o Mestre estava ensinando aos seus discípulos era que Ele é suficiente para suprir todas as suas necessidades. Ainda que eles tivessem perdido tudo, não haviam perdido nada, porque Cristo lhes era tudo o que precisavam para sua satisfação. O sacrifício cristão é abandonar algo de somenos importância para receber um tesouro de valor incalculável.
Deus pode mudar tudo, algumas coisas ou nada. O objetivo de Deus em cada uma de suas decisões soberanas é um só: o bem de seus filhos. À sua forma e gerida por Deus, tanto a completa reversão de uma situação específica como sua continuidade, contribui para o bem daqueles que O amam (Rm 8.28). Ao ultrapassar o nível da superficialidade é possível perceber que as formas de Deus tratar seu povo são diferentes apenas em seus modos, nunca em seus fins.
A graça de Deus basta! Precisamos entender e viver essa verdade. Alguns só conseguem amar a Deus em face do que Ele pode proporcionar. Se Deus não os cura ou não lhes confere prosperidade financeira, também não lhes serve. Estes amam e servem ao Senhor enquanto lhes for útil. Porém, Deus é soberano. Ele faz o que Lhe agrada. Ele pode curar completamente, assim como pode ajudar o indivíduo a suportar a enfermidade em sua continuidade. Ele pode reverter radicalmente todo o quadro, assim como pode deixá-lo como estar – quem sabe intensificá-lo – e conceder a graça suficiente para que se suporte este momento extraindo dele o máximo e benefícios espirituais (cf. Mt 5.11-12; Jo 16.33; 2 Co 4.7-15; Tg 1.2-4, 12; 1 Pe 1.6-7). E pasme! Tanto em um como noutro caso, é o amor de Deus que impulsiona seus atos soberanos.
John Piper atinge o cerne da questão ao dizer que “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nEle” (PIPER, John. Em busca de Deus, p. 240). Antes de orarmos pedindo para que Deus nos livre de nossas dores, precisamos rogar para que Ele nos faça mais satisfeitos nEle, independente da situação. É preciso ter a capacidade de amá-lo no meio do nada desse mundo. No meio da tribulação e da adversidade é onde podemos avaliar o quanto amamos a Deus e não os bens que ele pode nos dar. Ele sozinho é suficiente da vida até o fim. Ou você precisa de algo mais?
Soli Deo Gloria.





1 comentários:
Olá Diegão!!
Mais uma vez me surpreendendo com seus escritos hein?!
Você já leu aquele livro "A Cabana"? Pois ele também foca para esse lado do cuidado de DEUS em nossas vidas e o fato dEle muitas vezes "poder mudar tudo, algumas coisas ou nada", é bem interessante, depois te empresto se vc quiser tá!!
Parabéns!!
Bjão no coração!! =)
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