sábado, 27 de dezembro de 2008

Ele Nasceu para Morrer

Acabamos de passar por um dos maiores feriados do ano, o Natal. Sua existência em si, já exemplifica um pouco da grande influência de Jesus Cristo sobre o mundo Ocidental. Nunca outro sujeito foi tão fundamental para a formação cultural de um povo como Jesus. Natal, páscoa, divisão histórica ocidental (em antes e depois de Cristo), religião, filosofia, enfim, o Ocidente deve muito àquele cujo nascimento rememoramos no dia 25 de dezembro.


Quando penso em Natal, não me vem à mente o clássico texto de Isaías 9.6. Nem mesmo algum dos textos evangélicos que narra o nascimento de Jesus, a visita dos magos com seus presentes, ou mesmo a imagem de um recém-nascido envolto em uma manjedoura. Pelo menos, não a priori. As primeiras palavras que me vêm à mente estão registradas em João 1.14, que falam da encarnação de Cristo.


É lamentável ver o quanto as pessoas (inclusive evangélicos) se encantam e romanceiam o nascimento virginal de Jesus, o belo presépio, o incenso, a mirra, o ouro, a estrela, etc., e param por aí. Não sou contra comemorações natalinas, contanto que Cristo permaneça no centro das atenções, mas também não posso concordar em que o natal se resuma a isso. Muitos esquecem o fundamental do natal, ou seja, o motivo pelo qual Jesus nasceu.


A melhor pergunta a se fazer neste período é: por que Jesus se encarnou? Por que ele tomou a forma de homem? Por que tanta humilhação? Ao pensar sobre a resposta a estas perguntas é possível contemplar uma sombra negra por trás da manjedoura e a tal espada traspassando o coração de Maria. O fato é que Jesus nasceu para morrer. Ele desceu da glória para subir a uma cruz. Fez-se homem para por mãos de homens ser traído e assassinado.


João nos diz que “o Verbo se fez carne e tabernaculou [armou sua tenda] entre nós” (1.14). Aqui nós temos a maior prova do amor de Deus por nós unida à sua maior humilhação. O Verbo que estava com Deus desde o princípio, quando só havia a trindade, sendo Ele mesmo Deus (1.1; cf. Gn 1.1), a quem toda a Criação deve sua origem e manutenção (1.3; Cf. Cl 1.15-17), e em quem os homens encontram vida e por Ele são guiados em meio a trevas (1.4-5; cf. 5.26), Ele mesmo, tornou-se comungante das limitações de sua criação na encarnação.


Em João 1.10, temos um resumo de parte da história de Jesus. Diz-nos o texto que Jesus é co-Criador de tudo o que foi feito, juntamente com o Deus Pai. Temos aqui a existência pré-encarnada de Cristo em toda a sua glória. O apóstolo também afirma que ele “estava no mundo”. Ou seja, um testemunho de sua existência encarnada, em toda a sua humilhação. E ele conclui seu resumo registrando a resposta da humanidade aos esforços de Cristo, ou seja, rejeição. Apesar de a humanidade ter sido criada por Jesus, pelo Verbo, ela tornou-se alienada dele e não reconheceu o seu feitor – pura ingratidão e rebeldia. Como se fosse pouco, João nos diz que ele não fora rejeitado apenas por sua criação, mas também a sua própria casa não o recebeu (v. 12). Os seus familiares o renegaram. Nossa! Quanta rejeição! Quanto amor resignado!


Mesmo assim, no meio deste mundo ingrato, Cristo manifestou seu amor supremo. O Verbo, apesar do imenso prazer que possuía na presença de Seu Pai, dispôs-se a descer ao reino da miséria e montar sua tenda, por um pouco, no meio dos pecadores. “Deus é visto coberto de carne”. O Deus eterno se esvaziou de toda a sua glória para se humilhar na encarnação (Fp 2.5-8). Jesus se dispôs a humilhar-se em forma de homem por toda a eternidade. Naquela manjedoura, deu-se o inicio de uma nova e eterna forma do Verbo de Deus.


Não podemos deixar de pensar no nascimento do nosso Redentor à parte de sua morte e ressurreição. Não há sentido no Natal sem a Páscoa. O Rebento de Jessé nasceu para morrer.

As mãos que embalam o símbolo de um menino sobre uma manjedoura um dia se voltaram contra ele para matá-lo. Ao pensar no natal, lembre-se que aquele menino na manjedoura era o Deus encarnado, desde sempre condenado à morte. De uma forma, você e eu fomos responsáveis pela morte do dono da festa.


Não podemos, contudo, deixar de exultar com os anjos: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.14). Nada fugiu ao seu controle. Com seu nascimento, morte e ressurreição, Cristo trouxe a vida de que precisamos.


Feliz Natal!

Soli Deo Gloria

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Um Ensaio sobre Missão Integral

Missão Integral já é parte da pauta dos círculos de discussões teológicos e eclesiais há algum tempo, bem como da vida de parte das igrejas evangélicas. Sua teologia (como produto da reflexão bíblica de uma época e voltada para a mesma) foi articulada durante o Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado na cidade de Lausanne, na Suíça, em 1974, por líderes cristãos procedentes de mais de 150 nações. Ela pode ser definida mediante o lema “O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”, proposto por Lausanne.


Ed René Kivitz pensa em pelo menos cinco referenciais teológicos oferecidos pela Missão Integral. Sua soteriologia vê o domínio de Deus, de direito e de fato, sobre todo o universo criado, através daqueles restaurados à imagem de Jesus Cristo – o primogênito dentre muitos irmãos. Sua eclesiologia entende que Deus está salvando não apenas pessoas, mas restaurando a raça humana – um novo homem coletivo. A missiologia da Missão Integral “é a sinalização histórica do Reino de Deus, que será consumado na eternidade”. Implica em que a igreja deve empreender a ação de fazer Cristo o Senhor sobre tudo, todos e em todas as dimensões da vida. Sua antropologia fala da unidade indivisível das naturezas física e espiritual do ser humano, considerando-o um ser holístico. E, por fim, o kerigma, ou evangelização, na Missão Integral “é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e à fé, para acesso ao Reino de Deus”.[1]


Portanto, a Missão Integral também pode ser defina em termos de uma cosmovisão mediante a qual o mundo todo é visto como alvo e palco da ação missionária de Deus que visa a restauração do seu todo corrompido após a queda do ser humano. A restauração de todo homem e o homem todo, em todo lugar, é visto como o âmago da missão. Por todo homem entende-se a indiscriminação de pessoas quanto a raça, língua, sexo, condição social, etc. (cf. Ap 5.9), considerando a igualdade e comum dignidade de todos os seres criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gl 3.28). Por homem todo entende-se a integralidade do ser humano em suas dimensões física e espiritual, o ser completo, o qual sofreu os efeitos da queda não apenas em sua alma, como também em seu corpo. Por em todo lugar entende-se a extensão geográfica da missão, a qual é vista não apenas em sua dimensão transcultural, mas em sua dimensão integral, ou seja, todo e qualquer lugar constitui campo missionário. Desta forma, todos os crentes são diretamente convocados por Cristo para serem agentes cooperadores da missão.


1. Falsos pressupostos da Missão Integral


Por falsos pressupostos da Missão Integral quer-se referir àqueles que impedem a igreja local de engajar-se na visão integral da missão. Nesta pesquisa, serão destacados dois, os quais merecem alguma consideração por sua relevância. São eles o pressuposto da polarização entre evangelização e responsabilidade social e a dicotomia do ser humano. A Bíblia parece apoiar fortemente a divisão dupla do ser humano em parte espiritual e parte material.


1.1 Polarização entre evangelização e responsabilidade social.


Parte das igrejas evangélicas a nível mundial tende a divorciar a evangelização da ação social, com grande ênfase na primeira. A idéia por trás da prática é de que a evangelização é uma atividade espiritual e de competência da igreja constituída, enquanto ação social é uma atividade no mínimo “secular” e, em alguns círculos, “mundana”, de competência do Estado e/ou organizações não governamentais específicas.


No entanto, as duas constituem partes inseparáveis da agenda de Deus para missões. Timóteo Carriker destaca a observação de H. Bavinck de que em Gênesis 1.1 encontra-se a base necessária para a grande comissão apresentada nos evangelhos. Carriker destaca que neste verso tem-se revelado o “palco de missões”. “Nada menos que o mundo inteiro pertence à esfera do interesse de Deus. Antes de ser uma preocupação mais restrita, ela é basicamente universal”.[2] Ele escreve sua obra mostrando que não apenas Gênesis 1.1, mas toda a Bíblia é missionária, e nela toda é possível constatar que o escopo de Deus é todo o mundo criado; sua esfera de preocupação é universal. Portanto, o social também pertence ao escopo de Deus, bem como tudo o mais que fora criado e posteriormente contaminado pelo pecado.


A comissão do Pacto de Lausanne é categórica ao expressar que “embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão”.[3] Esta não é uma conclusão arbitrária. Ela fundamenta-se em pelo menos quatro doutrinas bíblicas fundamentais, conforme observa John Stott em seu comentário a esta seção. São elas a teontologia, a antropologia, soteriologia e a doutrina do Reino de Deus.


Quais as razões que levaram os evangélicos a negligenciarem a responsabilidade social? Quando isso aconteceu? John Stott, em seu livro O cristão em uma sociedade não cristã, apresenta algumas razões para o que David O. Moberg chamou de a grande guinada. Embora Moberg e Stott estejam situados no contexto norte-americano e europeu, respectivamente, a teologia e a práxis da Igreja brasileira recebem suas águas dessas fontes – pelo menos na maior parte.[4]


Apesar de os trinta primeiros anos do século passado prenunciarem a crise próxima, a grande guinada teria ocorrido especialmente durante a década que se seguiu à 1ª Grande Guerra. A primeira causa desta reviravolta foi a luta contra a teologia liberal que devastava a Igreja na Europa e na América do Norte no início do século XX. Os evangélicos estavam tão engajados na luta pela ortodoxia que não sobrava tempo para o social. Em segundo lugar, vem a reação dos evangélicos ao assim chamado “Evangelho Social”, que confundia evangelização com a proclamação de políticas sociais. A terceira razão da negligência dos evangélicos ao social foi a decepção do otimismo liberal devido a 1ª Grande Guerra e o conseqüente pessimismo que se seguiu. O otimismo em relação à raça humana desvaneceu face à carnificina e intensa maldade patrocinada por nações academicamente instruídas – a evolução da raça por meio da educação mostrou-se, mais do que nunca, falaciosa. A quarta razão foi a disseminação do modelo escatológico pré-milenista difundido por J. N. Darby e popularizada pela Bíblia de Scotfield, especialmente na forma do dispensacionalismo clássico.[5] Esta corrente afirma que o mundo continuará se deteriorando até a volta de Cristo, quando tudo será reconstruído. Até lá qualquer esforço para melhorá-lo é inútil e até mesmo, em alguns grupos mais radicais, anti-bíblico. A última razão para a alienação dos evangélicos do social elencada por Stott foi a “difusão do cristianismo entre as pessoas da classe média, cuja tendência era diluí-lo no processo de sua identificação com a própria cultura”.[6]


Contudo, a Igreja evangélica recebeu novo alento em sua concepção de missão integral já a partir da década de sessenta, iniciando com a voz do editor fundador do periódico norte-americano Cristianity Today, Carl F. H. Henry, passando pelo Congresso Anglicano Evangélico Nacional, na Inglaterra, tendo seu ponto máximo no Congresso de Lausanne, em 1974 e chegando à “Consulta sobre a relação entre a Evangelização e a Responsabilidade Social”, em Grand Rapids, EUA, em junho de 1982, quando foi definido que a atividade social é “tanto uma conseqüência como uma ponte para a evangelização [...] ambos se unem pelo evangelho, pois este ‘é a raiz de onde brotam tanto o evangelismo quanto a responsabilidade social’”.[7]


1.2 Dicotomia do ser humano.


É comum ouvirmos em nossas igrejas a expressão “salvar almas”. Seria uma expressão inofensiva caso não fosse um reflexo (pelo menos a prática assim o mostra) de uma soteriologia deformada pela influência platônica. Ao mesmo tempo em que é possível constatar biblicamente tal divisão do ser humano, percebe-se o valor que as Escrituras fornecem à integralidade e indivisibilidade do ser. A dicotomia entre corpo e alma (ou espírito – a Bíblia usa as duas palavras como sinônimas) não pode ser tomada como pretexto para implicações soteriológicas tomadas de empréstimo da filosofia platônica, onde o espiritual (alma) eleva-se em valor acima do material (corpo).


Este modo de encarar o ser humano define o alvo da ação missionária. Se o que importa mesmo é a alma (e somente ela), por que gastar tempo cuidando do corpo? A conclusão é lógica, mas sua proposição inicial está equivocada. O ministério de Jesus exemplifica bem a importância do homem em sua integralidade. Em Mateus 4.23-24 ele aparece curando tanto a alma como o corpo das pessoas. Ele veio para salvar o homem todo. Cristo define sua missão em Lucas 4.18 como “evangelizar”, “libertar” e “curar”. A mesma visão integral do ser humano é vista nos apóstolos (e. g., At 5, 6; Gl 2.10; Tiago).


A Bíblia contempla o ser humano como um ser holístico. Uma união inseparável de matéria e espírito. “Salvar almas” não é o alvo da missão de Cristo, pois a plenitude da salvação só poderá ser desfrutada na ressurreição do corpo, quando o homem todo (alma e corpo) será restaurado à condição de que gozava antes da queda. Uma alma desencarnada e um corpo sem alma constituem apenas um breve intervalo da existência entre a morte (separação de ambos) e a ressurreição (união). Nem um nem outro, sozinho, pode ser chamado de ser humano.


2. Serviço Social vs. Ação Social.


Boa parte de nossas igrejas deixa a desejar por contentar-se com o serviço social em detrimento da ação social.[8] O Relatório de Grand Rapids estabelece uma distinção entre estes dois empreendimentos cuja percepção pode ser relevante para o envolvimento social da Igreja.


Serviço Social foi definido como “socorrer o ser humano em suas necessidades; atividades filantrópicas; procurar ministrar a indivíduos e famílias; obras de caridade”. Enquanto Ação Social seria “eliminar as causas das necessidades humanas; atividades políticas e econômicas; procurar transformar as estruturas da sociedade; a busca da justiça”.[9] A primeira diz respeito à assistência imediata, onde os efeitos da ação ocorrem tão logo seja executada; são ações paliativas. A segunda demanda um planejamento em longo prazo, com efeitos duradouros.


Embutida no conceito de ação social está sua relação indispensável com a política. O Relatório prossegue descrevendo ação sócio-política como segue:


A ‘justiça social (...) trata não somente de pessoas, mas de estruturas; não só da reabilitação dos presos, mas da reforma do sistema penitenciário; não apenas da melhoria das condições de trabalho, mas da transformação do sistema econômico (qualquer que seja ele) e do sistema político (seja qual for), facilitando a libertação da pobreza e da opressão’.[10]


Em outras palavras, a Igreja necessita compreender sua responsabilidade não apenas em alimentar os famintos, o que obviamente deve ser feito de imediato. Mas deve buscar meios para que a pobreza seja erradicada de forma que aquele que antes necessitava da assistência paliativa (serviço social) não necessite mais, tendo sua dignidade restituída em poder, ele mesmo, prover para si e sua família suas necessidades básicas.


Sempre que há contentamento em permanecer no nível do serviço social, a igreja mantém-se aquém do necessário para o cumprimento integral de sua missão como continuadora da obra de redenção integral que Deus iniciou logo após a queda do ser humano e que prosseguiu durante toda a história da salvação, tendo seu ápice na encarnação do Filho e continuidade através dos apóstolos.



A despeito dos avanços experimentados nas últimas décadas no campo da Missão Integral, os resultados práticos ainda deixam a desejar – pelo menos no meio congregacional brasileiro[11]. Antigos paradigmas são difíceis de quebrar. Há forte oposição e receio quanto ao “novo” – ainda que os princípios da Missão Integral sejam tão antigos quanto Gênesis 1.1. Faz-se necessária uma urgente e radical reforma de velhas estruturas enrijecidas pelo tempo. Pois apesar de os princípios bíblicos serem absolutos, eles precisam ser contextualizados mediante estruturas que possibilitem sua relevância em cada geração.


Soli Deo Gloria


[1] KIVITZ, Ed René. Revista Eclesia.

[2] CARRIKER, C. Timóteo. Missões na Bíblia: Princípios gerais. p. 13.

[3] Pacto de Lausanne, seção V.

[4] O circuito das heresias (e da teologia de modo geral) parece bem definido no Ocidente. Elas nascem na Europa, são trabalhadas na América do Norte e, sem seguida, descem para o Brasil. De fato, já passou da hora de teólogos brasileiros, e sul-americanos como um todo, pensarem a teologia em seu contexto.

[5] Este é uma conclusão altamente plausível que merece uma pesquisa mais cuidadosa. Um estudo da primeira epístola de Pedro seria um bom antídoto contra essa tendência dispensacionalista. Pedro enfatiza várias vezes o dever que os cristãos têm de manter sua vocação ética e social mesmo em um contexto de hostilidades por parte dos não-cristãos.

[6] STOTT, John R. W. O cristão em uma sociedade não cristã. pp. 22-25.

[7] Idem, p. 26.

[8] Os estudiosos e profissionais da Assistência Social com certeza protestarão a estes conceitos. No entanto, uso-os no sentido em que foram definidos no Relatório de Grand Rapids, que passarei a expor abaixo.

[9] Apud STOTT, John R. W. Op. cit., p. 29.

[10] Apud Ibidem.

[11] Refiro-me ao contexto da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Poder Secreto

Muito se tem falado em nossos dias a respeito do poder de Deus. A expressão nos lábios de muitos evangélicos significa o poder sobrenatural de Deus em realizar sinais e prodígios. O poder de Deus pode e é demonstrado através de suas intervenções diretas no mundo natural, o que chamamos de milagres. Até este ponto a expressão não causa dano algum à verdade. No entanto, quando o poder de Deus é limitado a sinais e prodígios, temos um problema.

Os milagres registrados nas Escrituras apontam para o Deus Todo-Poderoso, Criador e mantenedor de todo o cosmos. A ordem natural estabelecida por Ele em sua criação pode ser invadida por sua intervenção a qualquer momento. A história da salvação é a história das intervenções de Deus na história da humanidade para direcionar e concretizar a redenção do seu povo. Quando essa intervenção acontece, dizemos que algo extraordinário aconteceu, i. é., algo “fora do comum”, “não rotineiro”, quebrando aquilo que é ordinário, i. é.,, “que está na ordem usual das coisas”, “habitual”, “rotineiro”.

Infelizmente, os defensores do movimento de sinais e prodígios – muitos dos quais são irmãos bem intencionados, porém equivocados – tentam transformar o extraordinário em ordinário, de tal forma que parecem viver como se um fosse o outro. Desse modo, já não há o extraordinário – pois de tão ordinário que é, passou a ser comum – e, o milagre, que por definição é extraordinário, deixa de ser milagre. Claro que eles não conseguem inverter a ordem estabelecida por Deus. Mas criam um ambiente virtual que sugere a inversão e alimenta a alma mística do evangélico brasileiro.

Paradoxalmente, um dos maiores problemas dessa falsa cosmovisão é que ela limita e oculta o poder de Deus. Seu poder não é revelado apenas nos sinais e maravilhas. Na conclusão de sua primeira epístola endereçada a cristãos sofredores, Pedro escreve exortando-os a se humilharem “sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte” (I Pe 5.6). A expressão “poderosa mão de Deus lembra o poder divino em salvar e libertar o seu povo, intervindo em sua situação (cf. Ex 13-3-16; Sl 136.10-12). No entanto, Pedro revela no conteúdo de sua epístola que esse poder de Deus é demonstrado não apenas nos livramentos que Ele pode conceder. Mas, especialmente, na segurança íntima e alegre resignação com as quais Deus faz transbordar o coração dos salvos mesmo no meio da dor e do sofrimento. Eis o poder secreto de Deus em atuação.

Este poder está presente na esperança, alegria, fé, amor e testemunho cristão que os crentes evidenciam no dia-a-dia (cf. Ef 3.16-17; Cl 1.11; 2 Ts 1.11-12). Está presente nas vidas que podem expor essas virtudes em meio às lutas e dissabores que acompanham as perseguições (1 Pe 6-10). Ele é experimentado na conversão e santificação dos santos (1 Pe 1.3-5); na submissão alegre a Deus e à Sua vontade; na certeza íntima da filiação com Cristo que permite ao fiel comungar tanto de Seus sofrimentos quanto de Sua glória com alegria comum. Enfim, o poder secreto de Deus é aquele que não faz estardalhaços, mas se mantém inabalável no íntimo e transborda em testemunho cristão. É o que permite ao cristão enfrentar as lutas da vida real com alegria e esperança, sem desesperar-se. É aquele que em meio a uma dor insofrível faz o homem olhar para os céus e clamar com sinceridade: “quem tenho eu nos céus senão a ti? E na terra não a quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Sl 73.24-25).

A busca das experiências místicas no meio evangélico anestesiou o poder de Deus que se expressa da forma mais urgente em nossos dias: através da moral e da ética, que são possíveis apenas mediante o processo de santificação. Além de produzir uma geração de crentes espiritual e emocionalmente enfermos, cheios de frustrações. Os sinais e prodígios não são produtos da vontade de homens, mas da vontade de Deus. Sendo soberano, Ele os realiza quando e como quer. O que vemos, no entanto, são líderes eclesiásticos marcando dia e hora para as curas acontecerem. Não se contentam em pedir que Deus as realize, na verdade, exigem que a assim o seja conforme a vontade deles mesmos. Esta demonstração de poder oculta e limita o poder de Deus em sua forma mais plena.

O diabo pode imitar aquela forma de poder que se expressa em sinais e prodígios (e. g., Mt 7.21-23; 24.24). Mas a fé, a esperança e o amor somente Deus pode produzir no coração do homem e no seio de sua igreja.

Soli Deo Gloria.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

30 de Novembro - Dia do Teólogo


Prece pelos Teólogos
Tomás de Aquino


Deus santíssimo, Deus Pai,
nós, teu povo e teus herdeiros,
te pedimos pelos teólogos.

Tu que te revelaste a nós pela Palavra de vida,
não permitas que não entendamos as palavras
dos teólogos na nossa vida;

Tu que te revelaste a nós pela encarnação de Jesus,
não permitas que eles falem de uma teologia
que não seja encarnada e sempre reveladora.

Deus santíssimo, Deus Pai,
Tu que és eterna luz e única verdade,
ilumina e esclarece o espírito dos teólogos,
que seus estudos sejam fruto do Espírito Santo,
de oração e de humildade,
fonte de esclarecimento para teu povo.

Que Tu não sejas para ninguém, sobre esta terra,
apenas um objeto de estudo, mas
a rocha segura sobre a qual podemos construir nossa casa.



Esse texto é uma colaboração de Glenn T. Every-Clayton, pastor e teólogo.



"IGREJA REFORMADA SEMPRE SE REFORMANDO"


Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero afixou suas 95 Teses na porta da igreja do Castelo de Wittenberg. Nelas, condenava os abusos da Igreja Romana na venda de indulgências para o perdão de pecados. Este dia se consagrou como o dia da Reforma Protestante. A partir de então, iniciara uma nova fase da Igreja. Lutero foi o estopim usado por Deus para inaugurar esse novo momento da Igreja cristã.

Não é verdade que na chamada Idade Média não havia uma igreja genuinamente cristã. Deus sempre preservou um remanescente fiel em todos os tempos. Porém, a igreja, de modo geral, necessitava de uma reforma. Pois há muito tempo havia perdido de vista “a fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jud. 3). A Igreja pré-Reforma tinha interesses mais políticos e econômicos do que espirituais. A Reforma surgiu nesse contexto como um grito dos verdadeiros cristãos contra a frieza espiritual.

Lutero e os demais reformadores gritaram a todo pulmão: “Não me envergonho do Evangelho!”. Era um grito de volta às Escrituras Sagradas e à verdadeira piedade. Eles resgataram lemas como “Sola Fide”, “Sola Scriptura”, “Solo Christi”, “Sola Gratia”, “Soli Deo Gloria”. Há muito tempo, a Bíblia estava sob o domínio de um pequeno clero, e o povo jamais tinha acesso às suas palavras. Até a missa era rezada em Latim. A Reforma colocou a Bíblia novamente em seu devido lugar, nas mãos do povo, como a única regra de fé e prática.

Entretanto, há uma urgente necessidade de uma nova Reforma na Igreja evangélica de nosso tempo. A pregação fiel das Escrituras está quase extinta de nossos púlpitos. A santidade e a piedade que devem caracterizar a vida dos verdadeiros crentes estão manchadas pela multidão de escândalos que envergonham o nome de Cristo em nossa sociedade. A Igreja e o mundo andam de mãos dadas por caminhos largos. Enfim, vivemos um momento de extrema e perigosa frieza espiritual, apesar de tanto se falar que a igreja brasileira é fervorosa. Fervor espiritual gera mudança e santidade. Esses são os critérios para se julgar uma igreja fervorosa, e não o volume do barulho que ela é capaz de produzir.

Nós, como povo de Deus, precisamos imitar o exemplo do apóstolo Paulo e de tantos outros irmãos em Cristo. Precisamos declarar para o mundo que “não nos envergonhamos do evangelho!”. E não somente declarar, mas também viver essa verdade. Não podemos nos furtar ao dever de sermos diferente do mundo, permanecendo inconformados com este presente mundo mau. Não podemos permitir que modismos e “ondas” teológicas penetrem a Igreja, diluindo o verdadeiro Evangelho de Cristo. Não podemos permitir que a mundanização da igreja brasileira avance ainda mais.

Enfim, precisamos manter o lema: “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (Igreja Reformada Sempre se Reformando), de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676). Precisamos, sim, de uma nova Reforma e, quem sabe, outra, e outra... Precisamos de uma reforma conduzida pela graça de Deus, acompanhada de muita oração, estudo da Palavra de Deus e santidade.

Que o Senhor se agrade em levantar em solo tupiniquim homens piedosos e ousados como Lutero, Hus, Wycliffe, Zwinglio, Calvino e tantos outros.


Diego dy Carlos
Soli Deo Gloria.