quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Discipulado Cristão - Entrevista com o Pr. Glenn T. Every-Clayton

O Pr. Glenn Thomas Every-Clayton é missionário, professor, pastor, escritor, e tem sido um referencial para muitos estudantes de Teologia nestas mais de 3 décadas de ministério no Brasil. Inglês, ele está em terras tupiniquins há mais de 37 anos como pastor congregacional e professor do STCN e outros seminários, bem como missionário da UESA junto com a sua esposa, a Dr.ª Joyce E. W. Every-Clayton. Tive a honra de tê-lo como meu professor - honra de que ainda gozo. Porém, bem mais que um professor, ele tem sido para mim um amigo, conselheiro e tutor. Ele foi um dos preletores oficiais do I Congresso de Jovens realizado pela União de Mocidade Evangélica Congregacional de Boa Viagem nos dias 14, 15 e 16 deste mês, sob o tema "Discipulado Cristão: Seguindo os passos do Mestre", junto com a Dr.ª Joyce. Esta pequena entrevista foi concebida por ocasião do congresso.


Pr. Diego - Como o senhor define “discipulado cristão” e qual o seu lugar na Grande Comissão do Senhor Jesus Cristo registrada em Mateus 28.18-20?

Pr. Glenn - Jesus ordenou (aos discípulos, v. 16), não que fizessem crentes de todas as nações, mas que fizessem discípulos. Três marcas de um discípulo: confiança total em Jesus, uma vida diária de testemunho, uma vida diária de serviço por amor.


Pr. Diego - Qual a importância do discipulado do novo convertido para a igreja local?

Pr. Glenn - Jesus mesmo dedicou grande parte de seu tempo à tarefa de fazer discípulos. Uma igreja que segue essa ênfase de Jesus, trabalhando com grupos pequenos, será uma igreja espiritualmente sadia. Fazer discípulos não é fácil, mas o discipulado do novo convertido é menos difícil do que do “velho convertido”!


Pr. Diego - A Igreja evangélica no Brasil tem experimentado um fenômeno onde se verifica um rápido crescimento quantitativo desassociado de crescimento qualitativo. Até que ponto a falta de um discipulado bíblico pessoal constitui um dos fatores deste problema?

Pr. Glenn - Certamente essa falta é uma das causas principais do problema. E daqui um pouco será aparente o quanto da construção da Igreja tem sido de “madeira, feno e palha”.


Pr. Diego - Seria correto afirmar que a Igreja evangélica brasileira hodierna é culpada por gerar filhos órfãos? Quais as conseqüências para a vida do novo convertido?

Pr. Glenn - Na medida que a liderança da igreja fica aquém do modelo de Paulo em 1 Tessalonicenses 2.11-12, o crescimento (para não dizer sobrevivência) do novo convertido fica super problemático.


Pr. Diego - O senhor abordou o tema “Seguindo os passos do Mestre em um mundo consumista: valores materiais e eternos” em um de nossos seminários. Fale um pouco sobre o conceito de “consumismo materialista”?

Pr. Glenn - Gosto da frase: “É quando você gasta dinheiro que não tem para comprar coisas que não precisa para impressionar pessoas que não gosta”!


Pr. Diego - É possível fazer alguma associação de causa e efeito entre o consumismo presente na igreja brasileira e a Teologia da Prosperidade ainda tão em voga no Brasil?

Pr. Glenn - Claro que sim. A tal teologia é a capitulação da liderança da igreja ao espírito consumista. Mas, no mundo espiritual, as causas viram efeitos, e os efeitos, causas; cria-se um círculo vicioso.


Pr. Diego - Como o senhor analisa o futuro da igreja brasileira?

Pr. Glenn - Não sou profeta! Se não cresse num Deus de surpresas, que pode fazer infinitamente mais do que imaginamos, já teria desistido. “O futuro brilha tanto quanto brilham as promessas de Deus.”


Soli Deo Gloria

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Apascentando Ovelhas ou Entretendo Bodes?

Um mal acontece no arraial professo do Senhor, tão flagrante na sua impudência, que até o menos perspicaz dificilmente falharia em notá-lo. Este mal evoluiu numa proporção anormal, mesmo para o erro, no decurso de alguns anos. Ele tem agido como fermento até que a massa toda levede.

O demônio raramente fez algo tão engenhoso, quanto insinuar à Igreja que parte da sua missão é prover entretenimento para o povo, visando alcançá-los. De anunciar em alta voz, como fizeram os puritanos, a Igreja, gradualmente, baixou o tom do seu testemunho e também tolerou e desculpou as leviandades da época. Depois, ela as consentiu em suas fronteiras. Agora, ela as adota sob o pretexto de alcançar as massas.

Meu primeiro argumento é que prover entretenimento ao povo, em nenhum lugar das Escrituras, é mencionado como uma função da Igreja. Se fosse obrigação da Igreja, porque Cristo não falaria dele? "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura" (Lc.16:15). Isto é suficientemente claro. Assim também seria, se Ele adicionasse "e provejam divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho". Tais palavras, entretanto, não são encontradas. Nem parecem ocorrer-Lhe.

Em outra passagem encontramos: "E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres" (Ef.4:11). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia, no que se refere a eles. Os profetas foram perseguidos por agradar as pessoas ou por oporem-se a elas?

Em segundo lugar, prover distração está em direto antagonismo ao ensino e vida de Cristo e seus apóstolos. Qual era a posição da Igreja para com o mundo? "Vós sois o sal da terra" (Mt.5:13), não o doce açúcar – algo que o mundo irá cuspir, não engolir. Curta e pungente foi a expressão: "Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos"(Mt.8:22). Que seriedade impressionante!

Cristo poderia ter sido mais popular, se tivesse introduzido mais brilho e elementos agradáveis a sua missão, quando as pessoas O deixaram por causa da natureza inquiridora do seu ensino. Porém, eu não O escuto dizer: "Corre atrás deste povo Pedro, e diga-lhes que teremos um estilo diferente de culto amanhã; algo curto e atrativo, com uma pregação bem pequena. Teremos uma noite agradável para eles. Diga-lhes que, por certo, gostarão. Seja rápido, Pedro, nós devemos alcançá-los de qualquer jeito!".

Jesus compadeceu-se dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca pretendeu entretê-los.

Em vão as epístolas serão examinadas com o objetivo de achar nelas qualquer traço do evangelho do deleite. A mensagem que elas contêm é: "Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!"

Eles tinham enorme confiança no evangelho e não empregavam outra arma.

Depois que Pedro e João foram presos por pregar o evangelho, a Igreja reuniu-se em oração, mas não oraram: "Senhor, permite-nos que pelo sábio e judicioso uso da recreação inocente, possamos mostrar a este povo quão felizes nós somos". Dispersados pela perseguição, eles iam por todo mundo pregando o evangelho. Eles "viraram o mundo de cabeça para baixo". Esta é a única diferença! Senhor, limpe a tua Igreja de toda futilidade e entulho que o diabo impôs sobre ela e traze-a de volta aos métodos apostólicos.

Por fim, a missão do entretenimento falha em realizar o objetivo a que se propõe. Ela produz destruição entre os jovens convertidos. Permitam que os negligentes e zombadores, que agradecem a Deus porque a Igreja os recebeu no meio do caminho, falem e testifiquem! Permitam que falem os negligentes e zombadores, que foram alcançados por um evangelho parcial; que falem os cansados e oprimidos que buscaram paz através de um concerto musical. Levante-se e fale o bêbado para quem o entretenimento na forma de drama foi um elo no processo de sua conversão! A resposta é óbvia: a missão de promover entretenimento não produz convertidos verdadeiros.

O que os pastores precisam hoje, é crer no conhecimento aliado a espiritualidade sincera; um jorrando do outro, como fruto da raiz. Necessitam de doutrina bíblica, de tal forma entendida e experimentada, que ponham os homens em chamas.


Charles Haddon Spurgeon


Apenas uma pergunta:

Em que época o príncipe dos pregadores escreveu estas palavras, no século 19 ou no século 21?

Nossa! Se não soubesse que ele viveu no século 19 eu diria que, de algum lugar nesse imenso país continental chamado Brasil, um pastor sóbrio e fiel ao seu chamado estava denunciando os dias de mornidão doutrinária e espiritual que nos caracterizam.


Precisamos de mais "Spurgeons". Que o Senhor nos ajude.