sábado, 18 de outubro de 2008

O Extremo Oriente da Rússia para Cristo

Há algumas semanas venho trocando e-mails com um casal de missionários russo (foto). Eles me encontraram através do Themélios e desde então temos conversado sobre a situação deles como missionários e a realidade do evangelho na Rússia, bem como as dificuldades e desafios que esta nação transcontinental apresenta às missões protestantes. Pela graça de Deus eles falam inglês – a língua russa é “russo”, amigos! Abaixo, traduzo parte dessas correspondências.


Olá, meu nome é Zhenya. Nós somos da Rússia. Eu e minha esposa [Nika] trabalhamos com estudantes. Nós temos duas filhas: Polina, de oito anos e Liliya, de dois. Nós organizamos muitos clubes para construção de relacionamentos com o objetivo de falar sobre Cristo. É uma ótima oportunidade para testemunhar a respeito do nosso Deus e do Seu amor! Isso é algo novo para a cultura russa. Nós somos missionários para o Extremo Oriente da Rússia [Far East Russia]. Moramos na cidade de Birobidzhan, uma região de judeus. Muitos judeus vivem aqui. Eles têm sinagogas e celebram suas festas religiosas. Porém, muitos deles não conhecem a Cristo.

Eu gostaria de explicar a situação em que nós nos encontramos agora. Em nossa cultura, não há o costume de se pagar um salário a pastores e missionários. Os russos são muito rígidos para o trabalho espiritual e não sentem o desejo de ajudar aqueles que trabalham pregando o Evangelho. As igrejas na Rússia são geralmente pequenas e não sustentam seus pastores. Eu trabalho como construtor para ter um salário e ao mesmo tempo atuo em minha igreja como missionário e diácono. É muito difícil. Eu tenho que trabalhar cerca de 10 a 12 horas por dia durante seis dias na semana. Deste modo, tenho pouco tempo para o ministério e para preparar meus sermões e programas para nosso ministério. Nós procuramos pessoas que desejam nos ajudar em nosso ministério para que continuemos a servir a nosso Senhor.

Nosso país não tem agências missionárias que auxiliem missionários na Rússia. Nós recebemos ajuda somente de missões estrangeiras. Há três anos a missão SEND começou a nos ajudar. Eles nos dão $100,00 todos os meses. Eles farão isso até a primavera de 2009. Essa missão trabalha na Far East Russia, mas nós tivemos mudanças nas leis de visto e ela não poderá mais trabalhar no país depois desta data. Eles vão para a Ucrânia e nós perderemos sua ajuda.

Eu gostaria de lhe explicar minha situação financeira. Nossa igreja em Birobidzhan me paga $26,00. Eu recebo $100,00 da missão SEND todos o meses – até a primavera de 2009. Meu salário como construtor varia de $150,00 a $180,00. Portanto, no final do mês, eu tenho um total que varia entre $276,00 e $300,00.

Agora, eu tenho que pagar $200,00 de aluguel do meu apartamento; $15,00 de eletricidade; $10,00 de serviço de gás; $80,00 de internet; $19,00 da escola da minha filha; $60,00 de plano de saúde. Portanto, eu tenho que pagar $384,00 todos os meses. E isso sem incluir produtos necessários para quatro pessoas e outras necessidades econômicas.

Você pode ver que eu não tenho condições de pagar tudo. Meu salário final é menos do que eu preciso. Eu não posso comprar roupas. As pessoas nos fazem doações de roupas de segunda mão. Eu tenho grandes responsabilidades todos os meses e elas ainda vão aumentar. Eu faço um apelo em meu coração a Deus para que Ele não permita que meu ministério acabe.

Por favor, ore por minha situação. Eu continuo com esperança e fé de que Deus está no controle de nossa situação. Ele pode nos dar tudo o que precisamos e faz a nossa fé cada vez mais forte mediante as dificuldades.

Você pode visitar nossa família e ministério em nosso blog: http://fareastrussiaforgodsglory.blogspot.com.


Em Cristo, Zhenya e Nika.


------


Quero esboçar apenas duas reflexões que julgo oportunas aqui:


1. Há muito mais além do glamour evangélico ocidental.

O mundo ocidental se acostumou a pensar no evangelho das mega-igrejas com seus templos luxuosos e plena liberdade de expressão e desenvolvimento; com seus requintes litúrgicos e mega shows de astros gospels; com a mídia permeada de pastores e líderes com seus já batidos discursos triunfalistas. O cristianismo que se desenvolveu em meio ao fogo das perseguições e todo tipo de provações e cuja história está escrita com o sangue de muitos mártires, desacostumou-se a pensar no sofrimento. Conseqüentemente, desacostumou-se a sofrer com os sofridos e socorrê-los em suas necessidades. Deveríamos nos envergonhar quando nossas orações e reuniões solenes se tornam fortalezas de corações enrijecidos e da mesquinhez de orações sem ação. Deveríamos voltar nossos olhos e forças para a ainda desconhecida “igreja perseguida” ao invés de patrocinarmos os discursos ufanistas de parte da milionária mídia evangélica brasileira. Estou plenamente convencido de que esses milhões seriam muito melhor investidos em missionários sérios que estão em missões no campo de batalha.


2. Costumamos valorizar o de menor valor.

Ao conhecer as história de tantos homens e mulheres de Deus que diariamente expõem suas vidas por amor a Cristo e sua missão, percebo o quanto costumamos valorizar futilidades. Supervalorizamos nosso apartamento aconchegante, a TV, o computador de última geração, roupas de grife, bons perfumes, um bom cinema, um bom restaurante, uma igreja climatizada, um grupo de louvor profissional, bancos confortáveis no templo (afinal, são quase duas horas de culto, não é verdade?!), etc. Às vezes, até temos a impressão de que não conseguiríamos viver sem essas coisas. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”. Depois de viver experiências bem maiores e mais intensas do que qualquer um de nós jamais vivenciará, Salomão concluiu que tudo é vaidade (vão). O melhor da vida, ele conclui, é: “teme a Deus, e guarda os seus mandamentos, pois é todo o dever do homem” (Ec 12.13). O melhor da vida é manter uma atitude abnegada (sem hipocrisia) disposta a amar a Cristo até as últimas conseqüências – como ele o fez por nós. Vidas são mais importantes que coisas. Enquanto nos embriagamos com as “maravilhas” do mundo high tech, há irmãos nossos dando suas vidas agora mesmo por valorizarem o que Cristo valorizou, dando-nos o exemplo (cf. Jo 4.34). Satisfazemo-nos com muito pouco. Precisamos alcançar a plenitude da vida ao nos entregarmos totalmente ao amado de nossas almas e única esperança de um mundo em trevas.

No mais, peço que os irmãos se juntem a mim em orações por esses irmãos. Nelas, busco orientação e a oportunidade de supri-los também em suas necessidades materiais. Talvez juntos possamos criar meios para abençoar esse casal. Você poderia sugerir algo. Se desejar, você pode deixar em meu blog uma mensagem de conforto e encorajamento para o irmão Zhenya e sua família. Encarrego-me de traduzir e enviar a eles.

Graça e paz vos sejam multiplicadas (1 Pe 1.2).

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

“Super-Homens” de Barro

O ser humano é uma das criaturas de hábitos mais bizarros e estúpidos dentre todos os seres que Deus criou. Pensando naqueles que ocupam o lado oposto da fronteira da racionalidade, os animais irracionais, de longe, mostram-se mais “coerentes” em alguns aspectos de seu comportamento. Estou pensando naquela disposição inata aos seres vivos, conhecida como instinto de sobrevivência, que os leva a empreender todo esforço utilizando-se de todos os meios disponíveis na luta pela vida. Tanto lutam pelo que pode prolongá-la, como fogem do que a ameaça.

O ser humano, por outro lado, possui o estranho hábito de se lançar à sorte da vida. Sendo um dos seres naturalmente mais frágeis de toda a criação (lembre-se apenas que precisamos produzir nossas próprias armas de defesa e ataque enquanto a maioria dos animais as possui naturalmente), ele não se apercebe do constante perigo que é viver, e brinca com o bem mais precioso e, ao mesmo tempo, mais frágil que possui. Muitos vêem a si mesmos “super-homens” invencíveis; imortais. Ledo engano.

O salmista declara que os homens são carne, vento que passa e não volta (Sl 78.39). Ainda falando sobre a brevidade e fragilidade da vida, Davi nos lembra que somos pó, e assim como a flor que, brotando e soprando nela o vento, logo desaparece, assim também é o homem (cf. Sl 103.14-16). Tiago pergunta: o que é a vossa vida? A resposta é perturbadora: É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece (Tg 4.14). A vida é como um vaso de barro que quebra uma vez só. Um breve pensamento que agora é e já não mais. No entanto, o ser humano insiste em acelerar sua degradação com os mais variegados vícios oriundos de uma natureza vendida ao pecado.

À luz de toda essa fragilidade da vida, o homem vive sempre à beira do lago da morte. Oh, morte! A mais fiel e imprevisível companheira do homem-pó.

A morte é muito custosa para os que não andam com Cristo. De contínuo, a fumaça do abismo os enleva e os envolve na penumbra de uma alma tomada pelo pecado que os torna completamente insensíveis ao perigo iminente que lhes cerca. Assim, no torpor do pecado, se recusam a abraçar a vida que Cristo pode dar. O seu “instinto de sobrevivência” não atinge o nível do espiritual e, assim, recusam-se a recorrer ao único meio de escape. Cada dia se assemelha a um jogo de “roleta russa”. De súbito lhes sobrevirá completa ruína. Para estes, a morte será acompanhada de uma passagem sem volta para o lago de sua irmã gêmea, a “Morte Eterna”.

Para muitos, em muitos lugares, ao mesmo tempo, neste mesmo tempo, o Senhor da vida e da morte anuncia: Louco! Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (Lc 12.20). Então, o vaso enfim se despedaçará.

Dentre muitos, mais cedo ou mais tarde – talvez hoje –, um será você!

Para quem será?

Soli Deo Gloria.