sexta-feira, 18 de julho de 2008

Profeta Ontem e Hoje

O ofício profético no Antigo Testamento nunca foi tarefa fácil, muito menos inconseqüente. O profeta era alguém encarregado de ser um transmissor das palavras de Deus aos homens, especialmente em momentos de crise e rebeliões. Ele era alguém que falava em nome de Deus, proclamando e interpretando a revelação da divindade.

O surgimento da instituição profética veterotestamentária está ligado a iminentes ameaças ao javismo puro por conta, especialmente, da corrupção do povo. A voz destes homens de Deus se levantava altissonante contra todo tipo de injustiça social, mercantilização da fé e religiosidade hipócrita. Destacava-se uma característica profética curiosamente esquecida por nós, ou seja, a ênfase na denúncia. A principal tarefa do profeta nunca foi a de prever o futuro, mas a de denunciar as injustiças e corrupções morais no presente.

Os profetas pagavam um alto preço por seu ministério. Tinham o grande privilégio de serem transmissores das palavras divinas. No entanto, grandes privilégios trazem consigo grandes responsabilidades e, no caso deles, grandes agonias também.

“Profeta” é um título muito usado hodiernamente. Em muitos círculos evangélicos, “profeta” é alguém capaz de prever o futuro ou revelar alguns segredos da vida pessoal de um indivíduo – uma espécie de vidente ou guru evangélico. Não raramente ele é celebrado como o “vaso” de Deus cuja palavra é normativa e incontestável. Eles estão presentes em quase todas as nossas igrejas trazendo revelações as mais fantasiosas imagináveis (e inimagináveis) e deixando um rastro de divisões por onde passam.

Os relatos de falsas profecias se avolumam diariamente e são causas de boas risadas nas conversas informais dos corredores das igrejas e seminários. Entretanto, quando pastores sérios precisam tratar suas ovelhas “vítimas” destes falsos profetas que, após mais uma profecia forjada, frustraram-se com Deus, a coisa não parece tão engraçada. São muitos os casos de divisões, decepções, frustrações, e tantos outros males que advêm desta prática pecaminosa de se falar em nome de Deus, quando Deus sequer abriu a boca.

Quando atentamos para o Antigo Testamento percebemos a seriedade com que Deus lida com o falso profeta. O profeta era julgado conforme o cumprimento da sua profecia. Caso aquilo que foi profetizado não se cumprisse, a pena para o falso profeta seria a morte[1].

Você já parou para pensar quem e quantos morreriam hoje? Além de um número exorbitante de "profetas" anônimos e profissionais, talvez a lista fosse encabeçada por alguns falsos pastores que pregam todo tipo de modismo mundano (quanto mais novo e estranho, melhor) esquecendo-se do Evangelho puro e simples registrado nas Escrituras. Em seguida, talvez viessem alguns artistas evangélicos. É comum vermos shows onde o artista/profeta anuncia mudanças radicais em determinada região ou segmento da sociedade, e nada nunca acontece. Eles vêm a Fortaleza e declaram as boas novas: “Deus está me dizendo que Fortaleza nunca mais será a mesma a partir de hoje! A violência e a prostituição infantil cairão por terra!” Vão a Copacabana e anunciam: “Deus está me dizendo que Copacabana agora é de Jesus! O tráfico no Rio de Janeiro tem chegado ao fim!” Os índices de prostituição infantil em Fortaleza e o tráfico no Rio continuam incontroláveis. Poderíamos gastar linhas e mais linhas com esses relatos. Tais exemplos são inumeráveis.

Estes homens são discípulos de Hananias e se postam ao seu lado, declarando “Paz! Paz!”, quando não há paz! As palavras de Jeremias ainda ecoam vigorosas: “Ouve [...]! O Senhor não te enviou, mas fizeste que este povo confiasse em mentiras. Pelo que assim diz o Senhor: Eu te lançarei de sobre a face da terra”.[2]

Hoje, os falsos profetas não são mais condenados à morte. Eles não morrem mais. Hoje, eles matam! Matam nossos irmãos emocional, psicológica e espiritualmente, à medida que os ludibriam com suas palavras mentirosas afastando-os da suficiência das Escrituras Sagradas.


[1] Cf. Dt 18.20-22.

[2] Jr 28.15,16a