quinta-feira, 17 de abril de 2008

“Pastor? Dirija-se ao Fim!”


“...Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte. Somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens”. I Cor. 4.9

Acredito não cometer nenhuma falta hermenêutica ao estender o desabafo do apóstolo Paulo aos demais líderes da Igreja de Cristo. Se não é assim de fato, o é por princípio. Também sei que Paulo tinha muito mais em mente. Porém, permitam-me concentrar-me num só ponto.

A situação do apóstolo até poderia ser inédita, porém, seria repetida inúmeras vezes ao longo da história: a igreja que ele fundara e à qual dedicara boa parte de sua vida agora o estava menosprezando. Puxa! Até parece a notícia do “Jornal Gospel” de ontem! O apóstolo se tornara descartável à igreja de Corinto. Talvez o sentimento de Paulo seja bem sintetizado noutro lugar: “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Cor. 12.15).

Sou um infante no ministério. No entanto, já posso experimentar suas dores. Não a dor de quem fundou uma igreja e foi por ela abandonado. Ainda não! Mas a dor do estado comum e natural de todo pastor – a dor de quem está, continuamente, em último lugar. Acredite, o último lugar tem um acento só! Cada pastor tem o seu, à parte dos demais. Ele amarga, como Cristo no Gólgota, a dor de sofrer sozinho. Este é o dia-a-dia do ministro do Evangelho.

Não sou pessimista. Sei que houve um tempo em que os pastores gozavam de certo respeito perante a sociedade e a igreja. Hoje, no entanto, a sociedade o ridiculariza, e não raramente, a igreja o desonra. Reconheço, com lamento, que boa parte da culpa da condição que o pastor experimenta hoje é daqueles que se auto-intitulam “pastores”. São homens sem caráter e espiritualmente vacilantes que acumularam escândalo sobre escândalo, vulgarizando o ofício do embaixador de Deus. Pastor no Brasil, hoje, é sinônimo de ladrão. Por outro lado, reconheço com igual lamento que outra parte da culpa é da própria Igreja que, absorvendo os valores seculares deste mundo, tem imensa dificuldade em vivenciar as coisas lá do alto.
Essa dificuldade gera conflitos na convivência entre igrejas e seus pastores. Não raramente aquelas esperam destes nada além do que uma empresa espera de um funcionário. Na linguagem socialista marxista: "mão-de-obra assalariada". Esperam comprar de um pastor sua mão-de-obra. Quando se pensa e age desta maneira, todo o trato gira no âmbito frio dos negócios. O ministro é avaliado pelo que rende (pela produção de mais-valia?). E quando não produz resultados pragmaticamente avaliáveis e contabilizáveis, está fora (mas sem os seguros de um funcionário demitido!) e contrata-se outro. Os cristãos também padecem daquela ingratidão comum aos seres humanos. A construção de um ministro erguida a sangue e suor ao longo de muitos anos é facilmente esquecida junto com a primeira parede que racha após um temporal. As humilhações, a solidão e a ingratidão são fiéis companheiras dessa laia de homens que abraçaram um chamado que poucos se atrevem fazer. Somos os últimos!

Diante disso, quero reafirmar meus votos com Aquele a quem represento. Mesmo sujeito a experimentar as dores do abandono dos mais achegados; da traição; das calúnias; das humilhações; das desconfianças; do desconforto; do pouco; sendo espetáculo para o mundo e para a Igreja, reafirmo meu pacto com Deus com mais convicção do que o fiz antes: “Eis-me aqui, Senhor. Envia-me a mim!”. Quero carregar as marcas de Cristo em meu corpo. Que o mundo me abandone! Que todos me desprezem! Que meus amigos me deixem! Mas que eu cumpra meu chamado aos pés do meu Senhor e n’Ele tenha gozo e d’Ele seja um prazer. Ainda não experimentei nada do que me aguarda como ministro – apenas fagulhas. Mas já experimentei um pouco daquela alegria misteriosa que só um louco (pastor) poderia sentir face às agruras do ministério. Alegro-me em saber que faço parte de um número maior. Se eu não fosse “o último”, teria motivos para me preocupar. Se não sentisse essa agonia, temeria não ter parte com Paulo e muitos outros ao longo da história no sagrado ministério da Palavra e da oração.

Reafirmo também: quero viver mesmo pela fé! Sério! Mesmo que boa parte da sociedade dos peregrinos não acredite mais nisso, considerando uma espécie de romantismo medieval, minha decisão está tomada! É pela fé que um pastor vive. Quando eu deixar de viver pela fé, deixarei de ser pastor.

Oro para que a comunidade à qual sirvo atualmente permaneça imune a essa tendência do nosso século. Hoje, não tenho do que me queixar - ela tem honrado a seus três pastores acima do que merecemos. Meu desejo é servir a Deus
servindo-a com presteza e humildade.
Que o Senhor me ponha por último. Que o Senhor conceda-me graça para cumprir meus votos.

Soli Deo Gloria.


P.S.: Aos amigos seminaristas, um conselho de amigo: ainda há tempo de desistir!

P.S. 2: Aos mais velhos: perdoem-me o atrevimento. Sei que as cãs me farão repensar muita coisa.