sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

“Descendit ad Inferna”

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra.


Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao lugar dos mortos (hades); ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos (grifo meu).



Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.


Análise Histórica


Ao lermos o Credo Apostólico nos deparamos com uma expressão no mínimo curiosa. Nós lemos que o Redentor Jesus “desceu ao Hades”. No entanto, não encontramos esta afirmação em lugar nenhum das Escrituras Sagradas. Esta idéia nem mesmo é desenvolvida por nenhum dos escritores sacros.

Deve-se observar que esta expressão também não fazia parte do Credo Apostólico em seu estado original. Ela nunca foi encontrada nas edições romanas (ou ocidentais) mais antigas do credo. E mesmo quando ela apareceu foi em substituição à cláusula “foi crucificado, morto e sepultado”. O que, até então, não causou nenhum problema teológico.

O problema teve início quando as duas sentenças, “sepultado” e “desceu ao Hades”, apareceram juntas no mesmo Credo, por volta do século VII. Desde então a questão tem se tornado tema de muitas pesquisas; assunto para muitos escritos e muita discussão.

Apoiados principalmente em uma interpretação equivocada de I Ped. 3.18-20, muitos círculos teológicos e personalidades da área têm levado adiante a idéia básica desta expressão. Com sensíveis níveis de variação afirmam que houve uma descida literal de Cristo ao Hades para evangelização dos espíritos em prisão. Esta doutrina é comumente chamada de o Evangelho do Hades.

Houve e ainda há muitas discussões em torno desta doutrina. A história nos apresenta muitos exemplos, de muitas correntes cristãs diferentes, de como esta doutrina foi entendida.

A Tradição Católica tem entendido que Cristo, após a sua morte, foi ao limbus patrum, um lugar às bordas do inferno identificado com “o seio de Abraão” ao qual Cristo se refere na parábola do rico e Lázaro. Neste local os santos do Antigo Testamento esperavam a redenção de Jesus Cristo, a qual ocorreu em sua descida ao Hades. Em suma, segundo essa tradição Cristo teria ido não especificamente ao local dos ímpios, mas ao local dos bons anunciando-lhes a salvação consumada.

A Tradição Anglicana sustentou uma doutrina da descida ao Hades semelhante à idéia Católica Romana. Por volta de 1537, período de Henrique VIII, sua doutrina era assim resumida: A alma de Cristo desceu ao inferno para conquistar a morte e o demônio e libertar os espíritos dos homens bons e justos que morreram desde Adão por causa de Deus e na fé no Redentor. Em síntese, eles proclamavam uma teologia de pagamento de penalidade no Hades e uma espécie de teologia do triunfo.

A Tradição Luterana afirmava que embora Cristo tenha ido literalmente ao Hades, o propósito foi o de proclamar a sua vitória sobre Satanás. Embora Lutero entendesse que nenhum aspecto da vitória de Cristo havia se manifestado antes de sua ressurreição, ele afirmou que cria no Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que havia morrido, sido sepultado e desceu ao inferno. Para os luteranos a descida ocorreu após o sepultamento.

A Tradição Arminiana mantêm um princípio comum às variegadas correntes de interpretações do Evangelho do Hades. Em suma, eles proclamam a doutrina da segunda oportunidade, a qual sustenta que Cristo teria descido ao Hades não somente para proclamar a vitória sobre a morte ou os demônios, nem tão somente para levar liberdade aos piedosos falecidos na antiga dispensação que esperavam no Messias, mas que também ele fora lá a fim de dar mais uma oportunidade aos mortos em geral que não ouviram a pregação neste mundo. A morte, para eles, não põe fim à operação salvífica da graça de Deus sobe os pecadores impenitentes.

Na Tradição Reformada a expressão “desceu ao Hades” é muitas vezes omitida totalmente do Credo Apostólico. Quando, porém, ela aparece é em substituição a “sepultado”. Geralmente a palavra Hades traz o mesmo significado de Sheol, a região dos mortos. No entanto, Calvino pensa em Hades como significando o sofrimento e morte de Jesus como expressão do recebimento da justiça divina. Em suma, o pensamento reformado sustenta que a descida de Cristo ao Hades foi algo que aconteceu enquanto ele estava sob a ira de Deus no Calvário ou, no máximo, quando foi sepultado. De todas estas tradições supra, a Reformada é a única que faz justiça a todos os requisitos de uma boa exegese.

O texto de I Ped. 3.18-20 não afirma nenhuma descida literal de Jesus a um lugar chamado Hades. O que se pode concluir do texto é que o Senhor Jesus Cristo, através de Noé, em seu estado pré-encarnado, pregou aos espíritos em prisão, os quais não deram ouvidos à pregação de Noé, naquele tempo.


A Interpretação de I Ped. 3.18-20


Talvez nem seja necessário explicitar que o nosso objetivo não será elaborar uma exegese do texto credal, principalmente na parte onde lemos “desceu ao Hades” – até porque tais palavras foram inserções do século VII, aproximadamente. Sabendo que o nosso compromisso é com a Palavra de Deus, deixaremos que ela fale por si mesma e conceda-nos as respostas de que precisamos. Então, seguiremos avaliando o ensino geral das Escrituras para a interpretação da passagem petrina.

Pedro nos apresenta Cristo como aquele que foi “morto na carne” e “vivificado em espírito” (v. 18). Com tais expressões o escritor inspirado está expondo dois estados diferentes da natureza de nosso Salvador: o primeiro está na esfera da limitação em que viveu no tempo de sua encarnação, com respeito a sua natureza humana, no seu estado de humilhação; o segundo diz respeito à uma esfera de poder e não-limitação, que ele tinha antes de encarnar-se e voltara a possuir após sua exaltação. Essa idéia também é apresentada por Paulo em Romanos 1.3-4 e em I Timóteo 3.16.

A palavra “carne” não significa, aqui, a natureza pecaminosa, como se mostra em outros contextos. Refere-se, antes, a este presente estado de fragilidade da existência humana como ela é agora. Estar “morto na carne” diz respeito à humanidade de Cristo em seu estado de fraqueza (porém sem pecado).

Ele foi “morto na carne”, mas “vivificado em espírito”. A palavra grega pneuma (“sopro”, “espírito”), aqui, deve ser grafada com inicial minúscula. Pois o autor não pretende apresentar a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, mas continua a apresentar a Cristo, agora, em seu estado de não-limitação. A expressão “vivificado em espírito”, em outros textos, refere-se à ressurreição de Cristo. Porém, aqui, o espírito vivificado tem a ver com a natureza divina do Redentor, antes de ele encarnar-se. Antes da encarnação o Senhor Jesus Cristo vivia neste estado de não-limitação que contrasta com o estado de limitação que ele experimentou quando da encarnação. Em sua exaltação ele retoma este estado eterno. Foi exatamente neste estado de não-limitação que ele foi e pregou aos espíritos em prisão, porém, no tempo de Noé.

O pronome relativo “o qual” refere-se ao espírito e significa “em cujo estado” ou “em tais circunstâncias”. O texto não está se referindo ao lugar aonde ele foi após sua morte, mas às condições em que ele se encontrava quando havia desobedientes no tempo de Noé. Foi nesse espírito de não-limitação que ele atuou através dos profetas no Antigo Testamento, bem como através de Noé quando este pregava aos seus contemporâneos desobedientes (cf. 1 Ped. 1.10-11). A resposta à pergunta: “quando o Senhor pregou aos de Noé?” é simples: Ele foi antes de ser o Verbo encarnado, em seu estado de não-limitação.

A idéia de que Cristo esteve no Hades no período entre sua morte e sua ressurreição provoca grande dissonância com as próprias palavras do Mestre. Certa feita ele declarou: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Luc. 23.46) – isso pouco antes de entregá-lo de fato. Ele também não dissera àquele ladrão arrependido à sua direita: “Ainda hoje estarás comigo no Hades”. Ele disse: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Luc. 23.43 – grifo meu). Paraíso na Bíblia é sinônimo de céu. É o terceiro céu onde Deus habita de forma especial, e o lugar que Paulo teve o privilégio de conhecer ainda nesta vida, em uma experiência singular (cf. 2 Cor. 12.2-4 – ele equipara o terceiro céu a paraíso). Por último, Cristo não bradou ao fim de seu penoso e triunfante trabalho: “Está quase consumado! Eu ainda preciso ir ao inferno concluir a obra de redenção para a qual fui enviado. Restam-me ainda alguns sofrimentos”. Não! Ele disse: “Está consumado!” (Jo. 19.30). Toda a obra de sofrimento e redenção do Salvador havia terminado. Nada mais faltava para a completa e perfeita redenção do seu povo – aqueles por quem Cristo morreu. Jesus não esteve no Hades após sua morte, mas subiu ao paraíso onde esteve com seu Pai e nosso Pai, e com os santos redimidos.

De fato, o texto de Pedro não se preocupa em mostrar onde nosso Senhor esteve após sua morte e antes de sua ressurreição. Porém, o que ele fez no estado de não-limitação (pré-encarnado) no tempo de Noé. Nesse estado ele foi e pregou aos contemporâneos de Noé, aos espíritos em prisão, que viviam escravizados naquele tempo.

Nesta mesma epístola, Pedro escreve que o “Espírito de Cristo, que estava neles [os profetas do A. T.], indicava, ao dar testemunho sobre os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e sobre as glórias que os seguiriam” (I Ped. 1.11). Da mesma forma Cristo também estava em Noé, uma vez que este foi um “pregoeiro da justiça” (2 Ped. 2.5). Sem dúvida Noé era um profeta em quem e através de quem Cristo pregou.

Noé é um personagem impressionante. Ele aparece pela primeira vez com quinhentos anos de idade. Seu bisavô foi um homem igualmente piedoso. Seu nome era Enoque, o qual pela graça divina foi trasladado e escapou da morte (Gên. 5.22-24; At. 11.5). Seu avô, Matusalém, foi o homem que mais viveu (Gên. 5.25-27). E seu pai Lameque parece ter sido também um homem religioso, que esperava o cumprimento da promessa de Gên. 3.15, pois dera a seu filho o nome de Noé, que significa “descanso” (Gên. 5.29), talvez esperando que este pudesse ser o prometido.

Noé viveu em um período negro da raça humana. O pecado e a depravação haviam empestado a sociedade tornando-a perdidamente corrupta. A maldade de seus contemporâneos era tamanha que o próprio Deus resolvera destruí-la completamente, com a exceção de Noé e mais sete pessoas de sua casa (Gên. 6.6-7; cf. 2 Ped. 2.5). A luz da justiça de Noé brilhou em meio à escuridão que o envolvia (cf. Gên. 6.8-9).

Deus revelou a Noé que enviaria as águas do dilúvio para pôr fim a toda aquela impiedade. O objetivo desta revelação era comissioná-lo para uma tarefa no mínimo estranha para ele. Ele teria que construir um imenso barco – o que provavelmente não existia na época – para preservar sua vida e a de sua família, bem como de todas aquelas espécies de animais que Deus descreveria. Não é difícil imaginar por que os perversos incrédulos que o rodeavam começaram imediatamente a zombar dele. Ele foi motivo de escárnio e chacota por todo o tempo em que trabalhou na construção da arca. No entanto, ele permaneceu firme na esperança da promessa que recebera de Deus. E mais que isso, ao mesmo tempo em que se dedicava à construção da arca, Noé pregava a salvação aos que zombavam dele. O próprio Cristo estava em espírito nele e com ele naquela empresa.

Ele pregou aos “espíritos em prisão”. O texto não fala de justos que foram para o Hades ou de anjos aprisionados. Mas de pessoas que, noutro tempo, rejeitaram a pregação de Noé e, por conta disso, eram consideradas espíritos presos, como o são os demais homens impenitentes – incapazes de fazer qualquer coisa por sua salvação. Eles estavam presos à cegueira espiritual peculiar a todo indivíduo da raça. Por isso não viram o escape que lhes fora proposto por Cristo em e através de Noé. Eram escravos da desobediência. Eles estavam presos no inferno quando Pedro escreveu estas palavras pelo fato de terem sido desobedientes no tempo de Noé. No entanto, sem mais nenhuma chance de escape, porquanto Cristo já os visitara em espírito naquele tempo.

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo o qual não se deixou sem testemunho nos tempos passados.


Conclusão


A conclusão a que chegamos com esta limitada pesquisa é que o texto de I Ped. 3.18-20 nada diz a respeito de uma descida de Jesus Cristo ao inferno após a sua morte e antes da sua ressurreição. O que o autor sacro tem em mente é a visitação do nosso Senhor Jesus em espírito – no seu estado de não-limitação – antes de sua encarnação, aos contemporâneos de Noé que eram escravos de seus pecados e por isso são chamados de “espíritos em prisão”. Pois naquele tempo “foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca” (v. 20).

O papel de Noé foi singular. Sua importância na interpretação deste texto fica patente a quem o lê. Foi ele um profeta de Deus guiado pelo espírito de Cristo para pregar aos espíritos em prisão. Ele foi um pregoeiro da justiça em meio a um povo de maldade ímpar. Em muitas décadas de pregação nenhum daqueles homens deu ouvidos às suas palavras. Era como se ele pregasse às tábuas usadas na construção da arca – não havia resposta alguma. Porém, ele não desistiu da sua pregação nem desacreditou a palavra de Deus que o avisou “das coisas que ainda não se viam, e sendo temente a Deus, preparou uma arca para a salvação da sua casa, pela qual condenou o mundo, e tornou-se herdeiro da justiça que é segundo a fé” (Heb. 11.7).


Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra.


Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.


Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.