Missão Integral já é parte da pauta dos círculos de discussões teológicos e eclesiais há algum tempo, bem como da vida de parte das igrejas evangélicas. Sua teologia (como produto da reflexão bíblica de uma época e voltada para a mesma) foi articulada durante o Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado na cidade de Lausanne, na Suíça, em 1974, por líderes cristãos procedentes de mais de 150 nações. Ela pode ser definida mediante o lema “O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”, proposto por Lausanne.
Ed René Kivitz pensa em pelo menos cinco referenciais teológicos oferecidos pela Missão Integral. Sua soteriologia vê o domínio de Deus, de direito e de fato, sobre todo o universo criado, através daqueles restaurados à imagem de Jesus Cristo – o primogênito dentre muitos irmãos. Sua eclesiologia entende que Deus está salvando não apenas pessoas, mas restaurando a raça humana – um novo homem coletivo. A missiologia da Missão Integral “é a sinalização histórica do Reino de Deus, que será consumado na eternidade”. Implica em que a igreja deve empreender a ação de fazer Cristo o Senhor sobre tudo, todos e em todas as dimensões da vida. Sua antropologia fala da unidade indivisível das naturezas física e espiritual do ser humano, considerando-o um ser holístico. E, por fim, o kerigma, ou evangelização, na Missão Integral “é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e à fé, para acesso ao Reino de Deus”.[1]
Parte das igrejas evangélicas a nível mundial tende a divorciar a evangelização da ação social, com grande ênfase na primeira. A idéia por trás da prática é de que a evangelização é uma atividade espiritual e de competência da igreja constituída, enquanto ação social é uma atividade no mínimo “secular” e, em alguns círculos, “mundana”, de competência do Estado e/ou organizações não governamentais específicas.
No entanto, as duas constituem partes inseparáveis da agenda de Deus para missões. Timóteo Carriker destaca a observação de H. Bavinck de que em Gênesis 1.1 encontra-se a base necessária para a grande comissão apresentada nos evangelhos. Carriker destaca que neste verso tem-se revelado o “palco de missões”. “Nada menos que o mundo inteiro pertence à esfera do interesse de Deus. Antes de ser uma preocupação mais restrita, ela é basicamente universal”.[2] Ele escreve sua obra mostrando que não apenas Gênesis 1.1, mas toda a Bíblia é missionária, e nela toda é possível constatar que o escopo de Deus é todo o mundo criado; sua esfera de preocupação é universal. Portanto, o social também pertence ao escopo de Deus, bem como tudo o mais que fora criado e posteriormente contaminado pelo pecado.
A comissão do Pacto de Lausanne é categórica ao expressar que “embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão”.[3] Esta não é uma conclusão arbitrária. Ela fundamenta-se em pelo menos quatro doutrinas bíblicas fundamentais, conforme observa John Stott em seu comentário a esta seção. São elas a teontologia, a antropologia, soteriologia e a doutrina do Reino de Deus.
Apesar de os trinta primeiros anos do século passado prenunciarem a crise próxima, a grande guinada teria ocorrido especialmente durante a década que se seguiu à 1ª Grande Guerra. A primeira causa desta reviravolta foi a luta contra a teologia liberal que devastava a Igreja na Europa e na América do Norte no início do século XX. Os evangélicos estavam tão engajados na luta pela ortodoxia que não sobrava tempo para o social. Em segundo lugar, vem a reação dos evangélicos ao assim chamado “Evangelho Social”, que confundia evangelização com a proclamação de políticas sociais. A terceira razão da negligência dos evangélicos ao social foi a decepção do otimismo liberal devido a 1ª Grande Guerra e o conseqüente pessimismo que se seguiu. O otimismo em relação à raça humana desvaneceu face à carnificina e intensa maldade patrocinada por nações academicamente instruídas – a evolução da raça por meio da educação mostrou-se, mais do que nunca, falaciosa. A quarta razão foi a disseminação do modelo escatológico pré-milenista difundido por J. N. Darby e popularizada pela Bíblia de Scotfield, especialmente na forma do dispensacionalismo clássico.[5] Esta corrente afirma que o mundo continuará se deteriorando até a volta de Cristo, quando tudo será reconstruído. Até lá qualquer esforço para melhorá-lo é inútil e até mesmo, em alguns grupos mais radicais, anti-bíblico. A última razão para a alienação dos evangélicos do social elencada por Stott foi a “difusão do cristianismo entre as pessoas da classe média, cuja tendência era diluí-lo no processo de sua identificação com a própria cultura”.[6]
Contudo, a Igreja evangélica recebeu novo alento em sua concepção de missão integral já a partir da década de sessenta, iniciando com a voz do editor fundador do periódico norte-americano Cristianity Today, Carl F. H. Henry, passando pelo Congresso Anglicano Evangélico Nacional, na Inglaterra, tendo seu ponto máximo no Congresso de Lausanne, em 1974 e chegando à “Consulta sobre a relação entre a Evangelização e a Responsabilidade Social”, em Grand Rapids, EUA, em junho de 1982, quando foi definido que a atividade social é “tanto uma conseqüência como uma ponte para a evangelização [...] ambos se unem pelo evangelho, pois este ‘é a raiz de onde brotam tanto o evangelismo quanto a responsabilidade social’”.[7]
Boa parte de nossas igrejas deixa a desejar por contentar-se com o serviço social em detrimento da ação social.[8] O Relatório de Grand Rapids estabelece uma distinção entre estes dois empreendimentos cuja percepção pode ser relevante para o envolvimento social da Igreja.
Serviço Social foi definido como “socorrer o ser humano em suas necessidades; atividades filantrópicas; procurar ministrar a indivíduos e famílias; obras de caridade”. Enquanto Ação Social seria “eliminar as causas das necessidades humanas; atividades políticas e econômicas; procurar transformar as estruturas da sociedade; a busca da justiça”.[9] A primeira diz respeito à assistência imediata, onde os efeitos da ação ocorrem tão logo seja executada; são ações paliativas. A segunda demanda um planejamento em longo prazo, com efeitos duradouros.
A ‘justiça social (...) trata não somente de pessoas, mas de estruturas; não só da reabilitação dos presos, mas da reforma do sistema penitenciário; não apenas da melhoria das condições de trabalho, mas da transformação do sistema econômico (qualquer que seja ele) e do sistema político (seja qual for), facilitando a libertação da pobreza e da opressão’.[10]
Em outras palavras, a Igreja necessita compreender sua responsabilidade não apenas em alimentar os famintos, o que obviamente deve ser feito de imediato. Mas deve buscar meios para que a pobreza seja erradicada de forma que aquele que antes necessitava da assistência paliativa (serviço social) não necessite mais, tendo sua dignidade restituída em poder, ele mesmo, prover para si e sua família suas necessidades básicas.
A despeito dos avanços experimentados nas últimas décadas no campo da Missão Integral, os resultados práticos ainda deixam a desejar – pelo menos no meio congregacional brasileiro[11]. Antigos paradigmas são difíceis de quebrar. Há forte oposição e receio quanto ao “novo” – ainda que os princípios da Missão Integral sejam tão antigos quanto Gênesis 1.1. Faz-se necessária uma urgente e radical reforma de velhas estruturas enrijecidas pelo tempo. Pois apesar de os princípios bíblicos serem absolutos, eles precisam ser contextualizados mediante estruturas que possibilitem sua relevância em cada geração.
Soli Deo Gloria
[1] KIVITZ, Ed René. Revista Eclesia.
[2] CARRIKER, C. Timóteo. Missões na Bíblia: Princípios gerais. p. 13.
[3] Pacto de Lausanne, seção V.
[4] O circuito das heresias (e da teologia de modo geral) parece bem definido no Ocidente. Elas nascem na Europa, são trabalhadas na América do Norte e, sem seguida, descem para o Brasil. De fato, já passou da hora de teólogos brasileiros, e sul-americanos como um todo, pensarem a teologia em seu contexto.
[5] Este é uma conclusão altamente plausível que merece uma pesquisa mais cuidadosa. Um estudo da primeira epístola de Pedro seria um bom antídoto contra essa tendência dispensacionalista. Pedro enfatiza várias vezes o dever que os cristãos têm de manter sua vocação ética e social mesmo em um contexto de hostilidades por parte dos não-cristãos.
[6] STOTT, John R. W. O cristão em uma sociedade não cristã. pp. 22-25.
[7] Idem, p. 26.
[8] Os estudiosos e profissionais da Assistência Social com certeza protestarão a estes conceitos. No entanto, uso-os no sentido em que foram definidos no Relatório de Grand Rapids, que passarei a expor abaixo.
[9] Apud STOTT, John R. W. Op. cit., p. 29.
[10] Apud Ibidem.
[11] Refiro-me ao contexto da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.





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