sábado, 13 de dezembro de 2008

O Poder Secreto

Muito se tem falado em nossos dias a respeito do poder de Deus. A expressão nos lábios de muitos evangélicos significa o poder sobrenatural de Deus em realizar sinais e prodígios. O poder de Deus pode e é demonstrado através de suas intervenções diretas no mundo natural, o que chamamos de milagres. Até este ponto a expressão não causa dano algum à verdade. No entanto, quando o poder de Deus é limitado a sinais e prodígios, temos um problema.

Os milagres registrados nas Escrituras apontam para o Deus Todo-Poderoso, Criador e mantenedor de todo o cosmos. A ordem natural estabelecida por Ele em sua criação pode ser invadida por sua intervenção a qualquer momento. A história da salvação é a história das intervenções de Deus na história da humanidade para direcionar e concretizar a redenção do seu povo. Quando essa intervenção acontece, dizemos que algo extraordinário aconteceu, i. é., algo “fora do comum”, “não rotineiro”, quebrando aquilo que é ordinário, i. é.,, “que está na ordem usual das coisas”, “habitual”, “rotineiro”.

Infelizmente, os defensores do movimento de sinais e prodígios – muitos dos quais são irmãos bem intencionados, porém equivocados – tentam transformar o extraordinário em ordinário, de tal forma que parecem viver como se um fosse o outro. Desse modo, já não há o extraordinário – pois de tão ordinário que é, passou a ser comum – e, o milagre, que por definição é extraordinário, deixa de ser milagre. Claro que eles não conseguem inverter a ordem estabelecida por Deus. Mas criam um ambiente virtual que sugere a inversão e alimenta a alma mística do evangélico brasileiro.

Paradoxalmente, um dos maiores problemas dessa falsa cosmovisão é que ela limita e oculta o poder de Deus. Seu poder não é revelado apenas nos sinais e maravilhas. Na conclusão de sua primeira epístola endereçada a cristãos sofredores, Pedro escreve exortando-os a se humilharem “sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte” (I Pe 5.6). A expressão “poderosa mão de Deus lembra o poder divino em salvar e libertar o seu povo, intervindo em sua situação (cf. Ex 13-3-16; Sl 136.10-12). No entanto, Pedro revela no conteúdo de sua epístola que esse poder de Deus é demonstrado não apenas nos livramentos que Ele pode conceder. Mas, especialmente, na segurança íntima e alegre resignação com as quais Deus faz transbordar o coração dos salvos mesmo no meio da dor e do sofrimento. Eis o poder secreto de Deus em atuação.

Este poder está presente na esperança, alegria, fé, amor e testemunho cristão que os crentes evidenciam no dia-a-dia (cf. Ef 3.16-17; Cl 1.11; 2 Ts 1.11-12). Está presente nas vidas que podem expor essas virtudes em meio às lutas e dissabores que acompanham as perseguições (1 Pe 6-10). Ele é experimentado na conversão e santificação dos santos (1 Pe 1.3-5); na submissão alegre a Deus e à Sua vontade; na certeza íntima da filiação com Cristo que permite ao fiel comungar tanto de Seus sofrimentos quanto de Sua glória com alegria comum. Enfim, o poder secreto de Deus é aquele que não faz estardalhaços, mas se mantém inabalável no íntimo e transborda em testemunho cristão. É o que permite ao cristão enfrentar as lutas da vida real com alegria e esperança, sem desesperar-se. É aquele que em meio a uma dor insofrível faz o homem olhar para os céus e clamar com sinceridade: “quem tenho eu nos céus senão a ti? E na terra não a quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Sl 73.24-25).

A busca das experiências místicas no meio evangélico anestesiou o poder de Deus que se expressa da forma mais urgente em nossos dias: através da moral e da ética, que são possíveis apenas mediante o processo de santificação. Além de produzir uma geração de crentes espiritual e emocionalmente enfermos, cheios de frustrações. Os sinais e prodígios não são produtos da vontade de homens, mas da vontade de Deus. Sendo soberano, Ele os realiza quando e como quer. O que vemos, no entanto, são líderes eclesiásticos marcando dia e hora para as curas acontecerem. Não se contentam em pedir que Deus as realize, na verdade, exigem que a assim o seja conforme a vontade deles mesmos. Esta demonstração de poder oculta e limita o poder de Deus em sua forma mais plena.

O diabo pode imitar aquela forma de poder que se expressa em sinais e prodígios (e. g., Mt 7.21-23; 24.24). Mas a fé, a esperança e o amor somente Deus pode produzir no coração do homem e no seio de sua igreja.

Soli Deo Gloria.

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