sábado, 28 de junho de 2008

Radical, eu?

Não raramente sou obrigado a ouvir a acusação de “radical”. Hoje, parei para pensar se realmente sou o que dizem e, conseqüentemente, se desejo ser (ou continuar sendo) o que o termo - nada amigável no tom em que vez por outra o escuto -, significa.

Antes de qualquer coisa, é necessário definir o vocábulo “radical” (espero que os não radicais saibam também o que ele significa). Para essa tarefa, nada melhor que o velho e bom Aurélio. Vejamos o que ele tem a nos dizer:

Radical” é um “adjetivo de dois gêneros” (nossa!). No sentido em que nos interessa aqui, radical é o “que não é moderado, que prega o radicalismo ou age com radicalismo, ou que revela radicalismo, inflexibilidade; radicalista”. Estamos quase chegando. Falta ainda definir o substantivo “radicalismo”. Radicalismo é: 1) “Doutrina ou comportamento dos que visam a combater pela raiz as anomalias sociais mediante a implantação de reformas absolutas”; 2) “P. ext. Qualquer doutrina ou comportamento que, sendo politicamente inflexível, provoca antagonismos”. Vamos começar pelo início.

É preciso ressaltar uma característica essencial à definição de radical. Ou seja, para ser um radical é preciso ter convicção.

Convicção é: 1. “Certeza adquirida por demonstração”. 3. “Persuasão íntima” (Aurélio). Alguém que está seguro das verdades que professa possui convicção. E por ter convicção de que tais verdades são o que são, por definição, permite que elas direcionem suas atitudes, as quais dizem muito a respeito de suas convicções íntimas. Por ser convicto, ele está disposto a manter sua convicção e defendê-la diante de falsidades. É muito estranho conceber um cristão sem convicção - apesar de ser o que mais vemos na pós-modernidade. Duas das fortes marcas do nosso tempo é o pluralismo religioso e o conceito de verdade relativa (insustentável diante do princípio da não contradição). Neste rio, muitos crentes redefiniram o conceito de tolerância, transformando-o na capacidade de se aceitar toda crença como verdadeira. Pasmem! Eles se orgulham disso e se acham autênticos acadêmicos intelectuais por esta postura. A tolerância, neste novo sentido, se tornou a virtude de um homem sem convicções.

Se houve alguém convicto neste mundo, esse alguém foi Jesus. Nossa! Quem poderia pregar como nosso Mestre? Quem poderia imaginar Jesus negociando a verdade (para os ateus e agnósticos de plantão, quero apenas reafirmar minha certeza na existência de verdades absolutas) e assentindo com algo que fosse contrário ao seu conjunto de crenças? Não! Jesus era um homem de convicções fortes. Também os seus discípulos sempre foram marcados pela convicção. Desde o início, eles estavam dispostos a morrer por aquilo em que acreditavam (leia Atos dos apóstolos e Livro dos Mártires, de John Foxe, apenas como exemplos). Para livrar suas cabeças da guilhotina bastava uma retratação verbal do que professavam. Por que não o faziam? Por que estavam dispostos a sacrificar a vida pelo que criam? Duvido que o fizessem se não tivessem convicções fortes. Se não acreditassem em verdade absolutas, seria muito relativa a honra de morrer por elas. Na Grande Comissão, o Senhor Jesus ordenou que se ensinasse a todas as nações. Ele não mandou dialogar com elas. Os cristãos têm verdades absolutas a sustentar e ensinar. Tudo o que for contrário às verdades do cristianismo, deve ser rejeitado como falso.

Após averiguar as definições e ponderar as implicações de ser radical, chego à conclusão de que ninguém foi mais radical do que Jesus Cristo. O padrão estabelecido por Jesus em seus discursos é elevado e exige certa dose de radicalismo. “Quem olhar com olhar impuro já cometeu adultério”; “se tua mão te faz pecar, arranca-a e lança fora”; “nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que se cumpra tudo”. Para segui-lo é exigido do discípulo que tome uma cruz e morra diariamente. Como aqueles homens, poderíamos nos perguntar: “duro é este discurso, quem o pode ouvir?”.

Uma outra conclusão a que cheguei é que ser radical é relativo. Depende em muito da norma pela qual se avalia. No meu caso, sou radical apenas para os de postura relativista e liberal. Sinceramente, nunca serei tão radical quanto Jesus (pelo menos, ainda não entrei em nenhum templo derrubando mesas e cadeiras).

Aí vai mais munição para os não radicais: sou culpado. Sou réu confesso.

4 comentários:

Elaine Vieira disse...

Só pra marcar presença: eu nunca comento, mas eu sempre leio. :)
Ah... adorei essa postagem.

Marcos R. Damásio disse...

“Ou seja, para ser um radical é preciso ter convicção”!

Gostaria de comentar só essa frase se for possível. Não entendo essa relação radicalismo-convicção como necessária, mas sim contingente, ou seja, é possível ser convicto de suas posições sem precisamente ser radical (uso aqui o termo radical como antagonismo inflexível, como na maioria das vezes o é e como você analisa em seu texto), como também vemos muitos radicais sem convicções, dentro da política brasileira isso é mais que comum. Pois acho que na maioria das vezes essa postura não passa de presunção ou ação em benefício próprio.

O “radicalismo” na minha óptica caracteriza-se, por exemplo, quando impulsionados por nossas convicções teológicas, filosóficas ou de qualquer outro gênero do conhecimento, e, até mesmo, por incrível que pareça, por motivações financeiras, fazemos afirmações “inegociáveis” que na maioria das vezes nem a própria Bíblia faz, ou não julga primordial, ou nem é claramente definida. Para ficar mais claro, especifico essa afirmação com os casos dos Batistas com o termo “baptisma” (batismo), as Testemunhas de Jeová, com o tetragrama (ou Jeová) e os Adventistas do Sétimo Dia com a questão do “Sábado do Senhor” (Shabat). Nenhuma dessas afirmações são categóricas nas Escrituras, como por exemplo, o crê para ser salvo. Aliás, nesse aspecto, e somente nesse aspecto, não vejo diferença entre esses grupos.

Dito isso, não vejo necessidade de radicalismo na maioria das “convicções” que permeia a maioria dos assuntos debatidos nos círculos cristãos e teológicos. Creio firmemente que a cristandade não logra êxitos com posições radicais desnecessária, assim também como não percebo maturidade nos cristão em debates como Lei da Homofobia, aborto, células-tronco e muitos outros assuntos pertinentes na atualidade. O que percebo é apenas uma leitura superficial em manuais de éticas e na grande maioria um “passar os olhos” nos textos do Norman Geisler. Fica, no entanto, a crítica aos “radicais de meia boca”, que entram pra guerra sem armas e sem escudos, a esses digo apenas CUIDADO!!!

Diego dy Carlos disse...

Querido irmão Marcos.

Você está sendo muito "radical" (conforme sua "óptica" sobre o termo) em suas afirmações. Digo-lhe, apenas: CUIDADO!

Ednaldo Émerson disse...

Como é dificil ser radical nesses termos....
Já estive mais radical, mas hoje me sinto sacudido para todos os lados... e como é dificil continuar estar radical.

Talvez o ser radical, aqui exposto, tenha uma forte afinidade com ser santo.

Ser santo é ser separado, não se misturar com as corrupções do mundo. Penso que o ser radical é o ser santo passando pelo o mundo corrupto.

"As trevas são dissipadas com a Luz"

Ótimo blog.

Encontrei através do sítio do Pastor Ary Jr.

Que o Senhor Deus te use como instrumento para edificação dos santos e salvação dos pecadores.