Há 37 anos atrás, o Dr. D. Martyn Lloyd-Jones foi convidado para proferir uma série de preleções no Westminster Theological Seminary, em Filadélfia, sobre algum aspecto do ministério. Ele escolheu falar sobre “pregação e pregadores”. Suas palestras foram publicadas em 1971 sob este mesmo título. Ele afirma que “a mais urgente necessidade da Igreja cristã da atualidade é a pregação autêntica”,[1] e que esta é a tarefa primordial da igreja e do ministro. Ele explica sua afirmação “em face da tendência de nossa época de depreciar a pregação às expensas de várias outras formas de atividade”.[2]John F. MacArthur Jr. também chama a atenção para esse perigo que envolve a pregação em seu livro Com Vergonha do Evangelho. Ele afirma que “a igreja tem assimilado a filosofia mundana do pragmatismo”.[3] Ele continua destacando que a pregação tem sido substituída por “novos métodos”, por toda variedade de entretenimento e técnicas de marketing de crescimento de igreja, e acrescenta:
O novo pragmatismo encara a pregação (particularmente, a pregação expositiva) como antiquada. Proclamar de modo claro e simples a Palavra de Deus é visto como ingênuo, ofensivo e ineficaz. Dizem-nos que obteremos melhores resultados se, primeiramente, entretivermos as pessoas ou lhes oferecermos dicas a respeito de como serem bem-sucedidas e lhes ministrarmos “psicologia popular”, cortejando-as assim para que “façam parte de nosso grupo”.[4]
A situação da pregação brasileira nas últimas décadas do século 20 e nestes primeiros anos do século 21 não foge a essa triste realidade. Paulo R. B. Anglada observa que até mesmo as igrejas de tradição reformada têm sucumbido paulatinamente a essa tendência.[5] Ricardo Gondim reconhece que os púlpitos brasileiros “estão cada vez mais empobrecidos. Pastores animam seus auditórios com frases de efeito, contentam suas igrejas com mensagens superficiais”.[6] Ele admite que o cristianismo necessita de uma nova Reforma, a qual deve começar pelo púlpito. Ainda citando Gondim:
Há uma tendência de transformar a igreja em big business. Pior, big business do lazer espiritual [..] Pastores e padres abandonaram sua vocação de portadores de boas novas. Assumiram novos papéis: animadores de auditório e levantadores de fundos. O púlpito transformou-se em mero palco. A igreja, simples platéia [...] Sermões podem ser facilmente confundidos com palestras de neurolingüística.[7]
Gostaria de fazer algumas considerações sobre a pregação nos púlpitos brasileiros nestes últimos dias sob a perspectiva das implicações da doutrina petrina da parousia.
1. A Palavra de Deus Como Princípio Fundamental da Pregação
As Escrituras do Antigo Testamento são uma chave hermenêutica necessária para se entender a mensagem de Pedro. Seu ensino concernente à parousia nos lembra que a suficiência da mensagem cristã e sua apologética provêm das Escrituras (cf. Atos 3.11-21; 1 Pedro 1.10-12 e 2 Pedro 3.2). Não é preciso recorrer à sabedoria do mundo para descobrir novas idéias ou respostas para as questões espirituais. Pedro se utiliza de toda a Escritura para corrigir os falsos mestres, consolar os cristãos perseguidos e exortar ímpios empedernidos.
Um dos grandes motivos por que a pregação bíblica expositiva tem sido relegada ao status de relíquia antiquada é a não compreensão da suficiência das Escrituras. MacArthur denuncia que muitos pastores são responsáveis pela ruína das igrejas ao se afastarem da pregação que reflete plena convicção na inerrância e suficiência das Escrituras. Ele prossegue: “é grande o número de pastores apóstatas e incompetentes; e isso está se tornando a norma e não a exceção”.[8] Os púlpitos cristãos têm sofrido os danos da “psicologização” dos sermões, com o fim de adaptá-los ao gosto dos ouvintes ou para suprir a falta de confiança no poder da Palavra.[9]
Ao fazer grande uso das Escrituras para ensinar a respeito da parousia de Cristo, Pedro prova aos modernos pregadores que não é necessário recorrer a nenhuma outra fonte de autoridade, senão a própria Palavra revelada de Deus (cf. 2 Pe 1.19-21). Os enganadores e pecadores sabem que as Escrituras os acusam, por isso tentam falsificá-las, no entanto, sem saber que o fazem “para sua própria perdição” (cf. 2 Pe 3.16).
O apóstolo Pedro escreve suas cartas e prega seu sermão em Atos não somente como um apologista ou mestre. Seus ensinamentos estão permeados de um tom pastoral, que visa o bem estar espiritual da igreja e a conversão dos perdidos. Quero destacar três implicações do ensino de Pedro concernente à parousia para a pregação bíblica. Ela deve ser: (1) uma mensagem de condenação; (2) uma mensagem de arrependimento e santidade; e (3) uma mensagem de consolação para a igreja.
1.1 Uma Mensagem de Condenação
Freqüentemente, os pregadores têm se colocado ao lado do profeta Hananias no anúncio da Palavra de Deus ao mundo perdido (cf. Jr 28.1-4). Eles têm anunciado uma “paz plástica”, quando o momento exige uma pregação mais enérgica da condenação do pecado. Não são necessários estudos aprofundados para se averiguar que a cultura ocidental está submersa em um profundo relativismo moral, característico da pós-modernidade. “No ambiente pós-moderno o pluralismo relativista domina o cenário das idéias, negando a possibilidade de um único caminho, a possibilidade de regras fixas”.[10] Valdeci da Silva Santos resume a frouxidão moral brasileira citando Jaime Kemp:
Parece correto afirmar que a “sensualidade legal” da cultura brasileira, com as suas indulgências aceitáveis, vem comprovando a teoria de que não existe pecado do “lado de baixo do equador“, anestesiando e até cauterizando a mente de alguns cristãos.[11]
Esta citação também revela outro dado alarmante. A cosmovisão mundana tem invadido sorrateiramente o ambiente das igrejas evangélicas. Já não é difícil encontrar cristãos pensando como os não cristãos. Assuntos como adultério, sexo livre antes do casamento, escândalos entre políticos “cristãos”, divórcio, e outros, já não são mais incomuns nos arraiais evangélicos. Pior, não são mais incomuns entre ministros e pregadores do evangelho.
É neste momento que os pregadores devem se postar ao lado de homens como o profeta Jeremias (e muitos outros profetas de Deus), que não hesitou em denunciar o pecado do povo e a conseqüente condenação de Deus, bem como a condenação do falso profeta Hananias (Jr 28.5-17). Ele não estava preocupado se agradaria ou não seus ouvintes. Sua preocupação era com a fidelidade às palavras de Deus. Os homens não precisam de mensagens que cocem os seus ouvidos. Eles precisam da verdade (cf. 2 Tm 4.1-5), ainda que seja dura.
A mensagem da parousia, conforme apresentada por Pedro, lembra aos pregadores que resta pouco tempo até que o Senhor volte para tomar vingança dos seus inimigos (1 Pe 4.5, 7, 17). Este será um dia de juízo (3.7). O apóstolo não se esquivou à responsabilidade de denunciar os pecados dos ímpios e avisá-los que aqueles trariam uma inexorável condenação da parte de Deus sobre eles.
A mensagem de Pedro repreende o pecado em dois aspectos: (1) no aspecto da conduta pecaminosa; e (2) no aspecto do ensino errôneo (cf. 2 Pe 3.3-4). Estas duas atitudes estão inseparavelmente unidas em uma relação de causa e efeito. “No sentido prático, nossa santidade é diretamente proporcional ao nosso conhecimento e à nossa subseqüente obediência à palavra de Deus”.[12] A conduta é resultado dos valores assimilados pelo conhecimento. Se o conhecimento é mau, conseqüentemente a conduta também o será. O inverso também é verdadeiro.
Em 2 Pedro 3.3-4, o apóstolo deixa claro que os escarnecedores zombam da parousia ao mesmo tempo em que andam segundo suas próprias concupiscências. Raciocinam: “já que Cristo não voltará, vivamos segundo nossos próprios desejos”. Esta é uma atitude semelhante à gerada pelo falso ensino a respeito da ressurreição, a qual foi combatida por Paulo em 1 Co 15. Aqui o erro gerou o seguinte raciocínio: “Já que os mortos não ressuscitam, então ‘comamos e bebamos porque amanhã morreremos’” (cf. v. 32), em um constante culto ao hedonismo antropocêntrico. “O cinismo e a satisfação dos próprios desejos regularmente se acompanham”.[13]
Portanto, os pregadores cristãos devem recuperar a determinação de serem bíblicos. A mensagem da cruz deve retomar o seu lugar de prioridade nos púlpitos. É necessário que o pregador desempenhe seu papel de profeta em nossos dias e denuncie os pecados de sua época. Assuntos como, pecado, juízo, inferno e condenação devem retornar aos púlpitos.
1.2 Uma Mensagem de Arrependimento e Santidade
A mensagem da parousia não somente anuncia a condenação aos pecadores. Eles também são desafiados ao arrependimento. Já observamos que dar oportunidade para o arrependimento dos homens é um dos motivos que “retarda” a parousia (cf. 2 Pe 3.9), e este evento é um dos resultados do arrependimento (cf. At 3.19-20). Portanto, a mensagem do arrependimento é uma marca imprescindível de um pregador autêntico do evangelho. De fato, não existe evangelho sem arrependimento.
A necessidade atual deste tipo de mensagem é refletida em uma outra obra de MacArthur, intitulada O evangelho segundo Jesus. Nesta obra ele denuncia os perigos da tendência atual de se ensinar um evangelho da “graça barata”. Nesta tendência Jesus é “oferecido” aos descrentes como Salvador, mas não como Senhor de suas vidas. Os defensores deste evangelho se opõem ao que denominaram “salvação pelo senhorio”.[14] Dizem que:
A doutrina da conversão a Cristo “não envolve compromisso espiritual algum, qualquer que seja”. Os que ensinam esse ponto de vista ensinam que as Escrituras prometem salvação a qualquer um que simplesmente creia nos fatos a respeito de Cristo e clame por vida eterna. Não há necessidade de se abandonar o pecado, nem de uma resultante mudança de estilo de vida, nem de se assumir um compromisso – nem mesmo a disposição para se submeter ao senhorio de Cristo.[15]
A “salvação pelo senhorio” não é nada mais do que o puro evangelho do arrependimento pregado por Jesus e os apóstolos (cf. Mt 4.17; At 5.31; 11.18; 2 Tm 2.25, 26). A tendência atual é dizer que esse tipo de mensagem que exige o arrependimento dos homens é deselegante e não atrai o “consumidor”.
Àqueles que já experimentaram este arrependimento, devem prosseguir no processo de santificação. A certeza da parousia de Cristo não pode ser dissociada de conseqüências éticas na vida dos que crêem. Como já foi realçado, a escatologia e a prática cristã em Pedro são indissociáveis. A piedade cristã deve caracterizar a vida dos salvos até que Cristo retorne. Esta ênfase é muito forte em 1 Pe 1.13 e 2 Pe 3.11-14.
Desta maneira, a tarefa dos pregadores não acaba no momento em que as pessoas se arrependem dos seus pecados e encontram a misericórdia de Deus. Ao contrário, ela apenas começou. Eles devem estimular a santificação em suas mensagens. Devem falar de abandono de pecados em linguagem bíblica. Somos obrigados a enfatizar isso devido a invasão de termos advindos da psicologia moderna para tratar o homem e seus problemas. “Grande número de pregadores abandonou suas redes em busca de alimentos sintéticos para as necessidades de uma nova sociedade”.[16]
Eles tentam explicar os problemas internos e externos do homem mediante conceitos anticristãos, como se Deus tivesse esperado dezoito séculos até que surgisse um ateu (uma referência a Freud) para ensinar à Igreja como aconselhar e ajudar o homem. Spurgeon não se enganou ao afirmar que:
Essas novidades vãs não têm feito bem algum, nem jamais farão enquanto o mundo existir. A Palavra de Deus tem sido suficiente para interessar e abençoar a alma humana ao longo dos tempos; as novidades, todavia, rapidamente perecerão.[17]
Falando sobre o supremo propósito do ministro, diz Baxter: “Esse propósito é agradar e glorificar a Deus. Também é estimular a santificação e a santa obediência do povo de Deus que está a nosso cargo”.[18] (cf. At 20.28-32).
1.3 Uma Mensagem de Consolação Para a Igreja
A mensagem da parousia em Pedro é um alerta para os descrentes de sua condenação, uma chamada para a necessidade do arrependimento, um estímulo à santidade para os cristãos, e também um consolo para os corações afligidos. Ela é um sinal inconfundível da bem-aventurança eterna ao lado de Deus. É a consumação da salvação adquirida na vida presente. Ela confere aos cristãos um novo sentido e objetivo na vida.
O grande objetivo da humanidade de encontrar um significado e propósito na vida está ao alcance de todo cristão. Nas Escrituras, Deus forneceu todas as peças deste grande quebra-cabeça metafísico da vida. A existência possui um início, meio e fim. E o fim está próximo. A parousia de Cristo é a grande fonte de consolo apresentada por Pedro em sua primeira epístola, ao lado do exemplo dos sofrimentos de Cristo. Os sofrimentos presentes são apenas a introdução da glorificação final dos salvos.
O apóstolo não precisou apelar a outra fonte senão as Escrituras e o seu próprio ensino, como palavras inspiradas. Da mesma forma, os pregadores e conselheiros cristãos devem encarar os sofrimentos humanos à luz das Escrituras. Muitas igrejas aflitas têm sido medicadas com o remédio errado. Os problemas não devem ser combatidos com os remédios da psicanálise, da terapia da auto-descoberta, da hipnose ou coisas do tipo. As igrejas cristãs não precisam de profissionais do aconselhamento e suas teorias, elas precisam ouvir a verdade sem misturas da Palavra de Deus.
E, o ensino concernente à parousia em Pedro confere à Igreja consolo inestimável. A esperança cristã da parousia (que difere da esperança não cristã por ser plena de certeza e confiança) se coloca como uma forte âncora lançada em um futuro certo, para o qual a história humana se desenrola até o dia da volta de Cristo. Ela nos garante que os sofrimentos são por pouco tempo (cf. 1 Pe 1.6). Aos cansados, Pedro diz que suportem um pouco mais, pois a parousia de Cristo não tardará. E junto com ela, as bem-aventuranças da salvação plena.
Portanto, as palavras de Paulo a Timóteo ecoam fortes e pertinentes nestes últimos dias:
Prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo coceira nos ouvidos, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando às fábulas.[19]
Nestes dias de crise do púlpito, a doutrina petrina da parousia desafia os pregadores a voltarem aos princípios bíblicos da pregação expositiva. Eles devem anunciar todos os desígnios de Deus, ainda que sua mensagem seja considerada anacrônica pelo homem pós-moderno. Somente a pregação autêntica do evangelho atingirá o cerne da necessidade humana, a saber, a salvação do homem todo.
Referência Bibliográfica:
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BAXTER, Richard. O pastor aprovado. Tradução: Odayr Olivetti. 2ª ed. São Paulo: PES, 1996. 200 p.
GOMES, Wadislau Martins. Psicologização do púlpito e relevância na pregação. Fides Reformata. São Paulo, vol. 10, nº 1, pp. 11-29, Janeiro-Junho de 2005.
GREEN, Michael. 2 Pedro e Judas: introdução e comentário. Tradução: Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1983. 184 p.
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MEISTER, Mauro. Igreja emergente, a igreja do pós-modernismo? Uma avaliação provisória. Fides Reformata. São Paulo, vol. 11, nº 1, pp. 95-112, Janeiro-Junho de 2006.
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SPURGEON, Charles H. A maior luta do mundo. São José dos Campos: Fiel, 1995. 80 p.
[1] LLOYD-JONES, D. Martyn. Pregação e pregadores. p. 7.
[2] Ibidem, p. 19.
[3] MACARTHUR JR., John F. Com vergonha do evangelho: quando a igreja se torna como o mundo. p. 6.
[4] Ibidem, pp. 8-9.
[5] ANGLADA, Paulo R. B. Vox Dei: a teologia reformada da pregação. Fides Reformata. São Paulo, vol. 4, nº 1, pp. 145-168, Janeiro-Junho de 1999.
[6] GONDIM, Ricardo apud ANGLADA, Ibidem, p. 162.
[7] GONDIM, Ricardo apud ANGLADA, Idem, p. 162.
[8] MACARTHUR JR., John F. Nossa suficiência em Cristo. pp. 111-112.
[9] Ver GOMES, Wadislau Martins. Psicologização do púlpito e relevância na pregação. Fides Reformata. São Paulo, vol. 10, nº 1, pp. 11-29, Janeiro-Junho de 2005.
[10] MEISTER, Mauro. Igreja emergente, a igreja do pós-modernismo? Uma avaliação provisória. Fides Reformata. São Paulo, vol. 11, nº 1, pp. 95-112, Janeiro-Junho de 2006. p. 97.
[11] SANTOS, Valdeci da Silva. A luta cristã pela fidelidade conjugal: um matrimônio digno em uma sociedade adúltera. Fides Reformata. São Paulo, vol. 11, nº 1, pp. 9-23, Janeiro-Junho de 2006. p. 11.
[12] MACARTHUR, Nossa suficiência em Cristo. p. 104.
[13] GREEN, 2 Pedro e Judas. p. 122.
[14] “a visão de que, para ser salva, a pessoa precisa confiar em Jesus Cristo como Salvador do pecado, e, também entregar-se a Cristo como Senhor de sua vida, submetendo-se à sua autoridade soberana”. MACARTHUR JR., John F. O evangelho segundo Jesus. p. 29.
[15] Ibidem., p. 24.
[16] GOMES, op. cit., p. 12.
[17] SPURGEON, Charles H. A maior luta do mundo. p. 18.
[18] BAXTER, Richard. O pastor aprovado. p. 96.
[19] 2 Tm 4.2-4.





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