quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Apologética Final

Há alguns anos atrás o apologista cristão Francis A. Schaeffer escrevia que “a apologética final, com ajuda de defesa e apresentação racionais e lógicas da fé, é aquilo que o mundo observa no cristão individual e nos nossos relacionamentos como grupo” (SHAEFFER, p. 230). Esposando uma apologética pressuposicionalista, Schaeffer enfatiza que a defesa e exposição de nossos pressupostos necessitam manter a coerência entre a afirmação destes e a prática de suas consequências lógicas finais no nível individual e coletivo. Ou seja, de nada adianta uma defesa da fé meramente teórica. A “verdade verdadeira” do cristianismo expressa-se mediante transformação de indivíduos e seu relacionamento com a coletividade.

Schaeffer está exalando um princípio básico do cristianismo de que não há cristianismo sem vidas intransformadas. O cristianismo não é mera religião, i. é., mais uma tentativa desesperada de homens desesperados em busca da satisfação da eternidade posta em seus corações através do contato com a divindade mediante seus próprios esforços. Ele também não é mais um sistema filosófico que necessite firmar suas teses cujos efeitos provavelmente jamais deixarão o campus acadêmico para penetrar a vida real. Por esses motivos, ele não precisa de intelectuais frígidos acorrentados a suas mesas.

O cristianismo tem que ver com relacionamento. A verdade revelada de Deus fala da liberdade conferida a nós por Cristo para experimentarmos vida real com o Deus vivo (cf. Rm 9.26; 1 Ts 1.9; Hb 9.14). Esta vida com Deus é aferida por meio dos frutos. O fruto do Espírito Santo deve vicejar no indivíduo em seu relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Quando Tiago se refere à vida cristã como religião, ele sente a necessidade de adjetivá-la. Ele a chama de religião pura e sem mácula (cf. Tg 1.22-27). E como se apresenta esta religião verdadeira? Em forma de vida prática. Esta “religião” é aquela cujas crenças conduzem o indivíduo à prática! Somente quando isso acontece, é possível divulgar e defender a fé cristã diante de um mundo que está saturado de teorias (filosóficas, científicas, teológicas, etc.) e que espera muito mais daqueles que se dizem herdeiros de Cristo.

Estamos vivenciando um momento crítico na curta história do protestantismo brasileiro. É hora de despertamos do sono. Nossa geração carece tanto de uma teologia madura como de uma consequente práxis inconformista. Nossa sociedade está se enfadando com o discurso de evangélicos sem vida. É preciso aprender com a história que por mais que o mundo nos odeie, ele jamais deixará de nos honrar quando nos mostramos diferentes. Pois ao nos matar, ele nos permite honrar o nome de Cristo em um fim comum. Não há honra maior.

Penso que, mais que nunca, é preciso resgatar e fazer valer o lema: “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (Igreja Reformada Sempre se Reformando).

Soli Deo Gloria.

Referência Bibliográfica:
SHAEFFER, Francis A. O Deus que intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

sábado, 11 de julho de 2009

Oração Materialista

A oração é a atividade mais sublime da alma humana. O homem atinge seu zênite espiritual ao dobrar seus joelhos para se encontrar com Deus em oração. Ali é possível gozar por um momento aquele reencontro glorioso para o qual estamos destinados e sem o qual nossa alma jamais encontrará repouso. Agostinho foi feliz ao declarar que “fomos criados para Deus, e nossa alma não encontrará descanso enquanto não retornar para ele”. A oração tem o poder de antecipar esse retorno.

Porém, que tempos os nossos! O capitalismo e materialismo religiosos transformaram o quarto secreto (Mt 6.6) em feiras medievais e a oração em moeda de troca. A prática da oração deixou de ser um momento de adoração a Deus para se tornar um culto ao materialismo humano. Em nossos dias, as orações são extremamente consumistas e voltadas para aquele que ora, ao invés de magnificarem Aquele a quem se ora. “Seja feita a minha vontade, assim na terra como no céu” é o novo lema. “Eu”, “para mim”, “meu”, são os pronomes preferidos dos seguidores da grande religião materialista.

A oração modelo ensinada por Jesus no Sermão da Montanha (Mt 6.9-15) é um excelente exemplo de oração não-consumista. Ela está voltada essencialmente para Deus. Ela inicia com uma exaltação de Deus como Pai celestial (v. 9), prossegue com três petições que dizem respeito a Deus e sua glória (vv. 9, 10) e, só então, por último, três petições que se referem àquele que ora (vv. 11-13). É óbvio que precisamos apresentar a Deus nossas ansiedades e petições, no entanto, perceba a ordem ensinada pelo Senhor: primeiro Deus, depois o homem. E mesmo nas petições que dizem respeito ao homem percebemos uma diferença gritante entre o que o Senhor ensinou e o que ouvimos hoje. Das três petições pessoais, a primeira se refere às necessidades materiais elementares (repito, elementares) e as duas outras a realidades espirituais.

A oração cujo centro é o próprio indivíduo é parte fundamental da devoção diária de Satanás. “Seja feita a minha vontade!”; é assim que ele ora.

Soli Deo gloria.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Deuses na Terra

E “sereis como Deus”. Essas palavras foram aos ouvidos de Eva como favos de mel ao paladar. Uma isca perfeita. Discreta e desejável. Não poderíamos esperar menos de Lúcifer. Ele sabia por experiência própria o fascínio que a idéia de ser Deus podia produzir. Se um anjo poderoso e privilegiado como ele fora por ela fascinado, o que dizer de seres inferiores? Infelizmente, Eva também não resiste e sucumbe à atraente proposta de Satanás.

O desejo que levou o primeiro casal à queda é um dos legados mais nefastos da miséria humana transmitido à raça. Está incrustada em seu coração e alimenta a alma. Desde o Éden, a essência do pecado consiste na tentativa de se viver tão independente de Deus quanto possível. Consiste em quebrar qualquer amarra que prenda o indivíduo a um ser superior que “espreita” suas criaturas dia e noite. Calvino menciona um dizer antigo que diz que todo homem tem dentro de si a alma de um rei (1 Peter 5.5). O homem busca o máximo da independência de modo que possa servir e agradar somente a si mesmo.

Pecado é um estado que conduz a uma atitude de orgulho auto-exaltado. Uma tentativa perene de auto-deificação. O pecado é a imagem e semelhança de Satanás (cf. 1 Tm 3.6).

A idéia de “ser como Deus” é atraente não apenas pela possibilidade de uma independência volitiva e moral, mas também pela idéia de se extrapolar o nível do natural elevando-se ao sobrenatural ou sobre-humano. Enquanto ente sujeito às leis naturais do mundo criado, o homem está preso às amarras do tempo e da matéria. A auto-deificação expressa o desejo de se sobrepujar as limitações naturais do ser e penetrar o mundo dos “deuses”. Esta é a independência plena: a quebra de qualquer limitação natural.

Este velho desejo de “ser como Deus” está no coração da Teologia da Prosperidade. Para essa onda teológica (hesito em chamá-la de teologia - talvez alguma qualificação como “teologia de segunda”, ou “teologia espúria” seja melhor), o ser humano não pode adoecer, não pode passar por privações materiais, não pode experimentar a tristeza, não pode perder uma batalha espiritual, ou seja, o ser humano precisa “ser como Deus”.

A Teologia da Prosperidade intenta destronar o Deus Criador e colocar a criatura em seu lugar. Ela ensina aos homens a dar ordens a Deus e a determinar o que este deve ou não fazer. Com isso dizem que são mais sábios do que Deus em suas decisões. Fazem de Deus um servo que está sempre pronto para servi-los. Posso até imaginar como satanás está orgulhoso com o sucesso de uma investida tão antiga. Basta um pequeno estímulo, como a sugestão de “ser como Deus”, para o homem extravasar todo o orgulho que corre em suas veias.

E sereis como Deus”. Essa é a proposta da Teologia da Prosperidade esposada por tantos pastores midiáticos e que tem angariado tantos adeptos no Brasil e no mundo. No entanto, não há nada novo nisso tudo. Estão apenas plagiando um velho “deus” frustrado que insiste em brincar de Deus.

Soli DEO Gloria.



P.S.: Essa pequena reflexão é o extrato de um papo teológico (de um dos tópicos, ao menos) agradabilíssimo com os pastores Aureo Rodrigues, reitor do Seminário Presbiteriano de Fortaleza e José Rafael, colega de labuta na comunidade na qual ministramos.

P.S. 2: Sugiro ainda a leitura de ROMEIRO, Paulo. Super Crentes. 2ª Edição. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2007.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um Templo ou um Teatro?

"Os homens parecem nos dizer: “Não há qualquer utilidade em seguirmos o velho método, arrebatando um aqui e outro ali da grande multidão. Queremos um método mais eficaz. Esperar até que as pessoas sejam nascidas de novo e se tornem seguidores de Cristo é um processo demorado. Vamos abolir a separação que existe entre os regenerados e os não-regenerados. Venham à igreja, todos vocês, convertidos ou não-convertidos. Vocês têm bons desejos e boas resoluções: isto é suficiente; não se preocupem com mais nada. É verdade que vocês não crêem no evangelho, mas nós também não cremos nele. Se vocês crêem em alguma coisa, venham. Se vocês não crêem em nada, não se preocupem; a ‘dúvida sincera’ de vocês é muito melhor do que a fé”. Talvez o leitor diga: “Mas ninguém fala desta maneira”. É provável que eles não usem esta linguagem, porém este é o verdadeiro significado do cristianismo de nossos dias. Esta é a tendência de nossa época. Posso justificar a afirmação abrangente que acabei de fazer, utilizando a atitude de certos pastores que estão traindo astuciosamente nosso sagrado evangelho sob o pretexto de adaptá-lo a esta época progressista. O novo método consiste em incorporar o mundo à igreja e, deste modo, incluir grandes áreas em seus limites. Por meio de apresentações dramatizadas, os pastores fazem com que as casas de oração se assemelhem a teatros; transformam o culto em shows musicais e os sermões, em arengas políticas ou ensaios filosóficos.

Na verdade eles transformam o templo em teatro e os servos de Deus, em atores cujo objetivo é entreter os homens. Não é verdade que o Dia do Senhor está se tornando, cada vez mais, um dia de recreação e de ociosidade; e a Casa do Senhor, um templo pagão cheio de ídolos ou um clube social onde existe mais entusiasmo por divertimento do que o zelo de Deus? Ai de mim! Os limites estão destruídos, e as paredes, arrasadas; e para muitas pessoas não existe igreja nenhuma, exceto aquela que é uma parte do mundo; e nenhum Deus, exceto aquela força desconhecida por meio da qual operam as forças da natureza. Não me demorarei mais falando a respeito desta proposta tão deplorável".


Por Charles H. Spurgeon

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Adoração de Fachada - Amós 5.21-27

Não sou da escola positivista, mas tenho fortes motivos para acreditar que alguns acontecimentos históricos se repetem. Vivemos um tempo marcado por muitos elementos dos dias de Amós. Principalmente no que diz respeito a uma espiritualidade caracterizada por ritos pagãos cada vez mais enraizados na adoração cristã e a hipocrisia de se sacrificar a Deus em meio à indiferença social. Essas, o paganismo crescente e a injustiça social, foram duas das ênfases mais fortes da denúncia profética do boieiro que se tornou profeta.

O profeta usa verbos fortes como “aborreço”, “desprezo” (v. 21), “não me agradarei delas”, para expressar a repulsa de Deus à adoração de seu povo. O Senhor não consegue sentir o cheiro dessa adoração fingida e destituída de espírito. Ele não aceitava o sacrifico deles, uma vez que a verdadeira adoração deve começar no coração dos adoradores. Os israelitas transformaram a adoração em mero ritualismo e o faziam quase que mecanicamente. Achavam que se cumprissem as exigências externas da adoração Deus ficaria satisfeito. Porém, não adianta um sacrifício externo quando o interior está cheio de pecado (cf. Sl 51.16, 17).

Em seguida, o profeta faz duas advertências, uma negativa (v. 23) e outra positiva (v. 24). Negativamente, Deus exige que parem as expressões de adoração mais fervorosas, a música. Ele não suporta ver uma adoração fingida que se alegra em meio ao pecado. Quando tudo estava mal, esses falsos adoradores adoravam a Deus com alegria. Deus estava muito irado, a ponto de proibir algo que muito lhe agrada (cf. Sl 33.2, 3). Positivamente, Deus exige que a adoração seja acompanhada de justiça (v. 24). Sem este elemento não há verdadeira adoração. A adoração verdadeira é fruto de uma constante vida de serviço fiel e devoto a Deus, que expressa na prática aquilo que se é por dentro. O caminho percorrido pela adoração não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ela flui de um coração puro e regenerado por Deus. Aqueles que procuram adorar o nome de Deus devem ser aqueles que honram o caráter de Deus tanto em palavras como em ações.

Estou cansado de ver “cristãos” professos com suas mãos erguidas em adoração no templo enquanto na rua e nos negócios são velhacos, trapaceiros, mentirosos, subornadores, sonegadores e briguentos. Em casa, são péssimos maridos, grosseiros e desamorosos, ou péssimas esposas, rixosas e tolas, ou péssimos filhos, desobedientes e respondões, mas na companhia da igreja aparentam piedade e devoção. Não posso crer que Deus se agrade das mãos erguidas e dos clamores “apaixonados” daqueles que não se dispõem, antes, a descer à cruz de Cristo em piedade autêntica e íntima. Os escândalos dos evangélicos (seja em nível nacional ou local) se multiplicam à proporção em que esta igreja criada no berço da mídia e dos empresários da fé aumenta.

Além disso, à semelhança dos israelitas dos tempos de Amós, temos nossa própria dose de paganismo. O misticismo católico romano misturado com as crenças africanas incrustada no povo brasileiro introduziu o apresso a relíquias sagradas, superstições e os cultos que mais parecem uma expressão religiosa da umbanda ou alguma outra religião afro-brasileira. A pureza e simplicidade do culto cristão foram substituídas por elementos pagãos de modo a formar uma nova expressão religiosa sincrética. Enquanto nos perdemos nesse sincretismo, os “profetas” da terra cantam sobre a “geração do avivamento” e reúnem multidões com suas promessas de “chuvas de bênçãos”. Talvez seja mais sábio chorar clamando por misericórdia ao ouvir: “Desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer [...] Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Am 5.21, 24).

No caso de Amós, a solução foi o cativeiro. Talvez estejamos em um nível tal que seja necessária uma ação drástica como aquela.


Que Deus nos ajude.

sábado, 11 de abril de 2009

Cordeiro Pascal

Abstendo-me de uma discussão mais aprofundada a respeito das influências pagãs sobre a moderna festa da páscoa no ocidente, transcrevo, abaixo, apenas uma pequena meditação sobre a essência desses dias que nos trazem lembranças tão sublimes. Bendito seja "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo".


Talvez nenhum feriado seja tão delicioso quanto o da páscoa. As festas são aromatizadas com o doce cheiro dos ovos de chocolate. A criançada adora ver um coelhinho engraçado levando sobre os ombros uma sacola repleta deles. E a família, geralmente distante, se reúne em torno da mesa para celebrar o vinho e a vida.

O trágico de tudo isso, no entanto, é que o verdadeiro sentido da páscoa tem se perdido no tempo. Até mesmo os de fé evangélica têm compreendido mal o espírito da época. Os ovos confeitados e os coelhos têm roubado a cena. O feriado tem sido mais esperado que a lembrança que estes dias pretendem avivar em nossa mente.

Em uma quinta-feira como a passada o nosso Senhor Jesus gozava a companhia dos seus amigos em uma última ceia. João se reclinara ao seu peito enquanto Judas o apunhalava pelas costas. Traído por seu amigo íntimo, o Filho de Deus estava às portas de ser imolado como o Cordeiro pascal prometido desde antes da fundação do mundo. Prestes a derramar o sangue que devia ser o nosso e a carregar a cruz cuja inscrição levava o meu nome e o seu.

Na cruz, o Cordeiro de Deus aspergiu seu sangue sobre as ombreiras de nossas almas a fim de que o Anjo da morte passasse por cima de nossas vidas (cf. Êx 12.1-28). Por seu sacrifício, a ira de Deus foi desviada de sobre nós. As cadeias que nos escravizavam ao pecado e à morte foram esmiuçadas. Fomos libertos da culpa que pesava sobre nós ante o tribunal do Supremo Juiz, e a inimizade que nos afastava de Deus, desfeita.

Em um dia de páscoa o Cordeiro de Deus foi mesquinhamente traído por mixaria. Injustamente julgado e declarado culpado por crimes que não cometera. Em uma “sexta-feira da Paixão” ele fora entregue a Pilatos por pura inveja. Pilatos, por sua vez, entregá-lo-ia aos soldados lavando covardemente suas mãos. Os soldados, escarnecendo o Senhor da Glória – aquele que sempre nos amou e mesmo no clímax de toda esta injustiça achou-se misericordioso para interceder por nós (“perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”), crucificaram-no cruel e impiedosamente em nossa cruz.

“Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Co 5.7). Eis aí a páscoa que o mundo esqueceu. Nestes dias, traga à memória aquilo que te trouxe perdão e salvação. Tente não esquecer o “dono” da festa. Tente não substituir o Cordeiro pelo coelho. Ele “padeceu fora da porta (...) saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando seu opróbrio” (Hb 13.12). Ao terceiro dia, o Cordeiro de Deus ressurgiu coroando de glória seu sacrifício e efetivando nossa salvação.

O verdadeiro sentido da páscoa é Cristo sacrificado por nós, “pelo que celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5.8). Amém.

Solus Christus

sábado, 21 de março de 2009

Declaração de Savoy de Fé e Ordem

O texto a seguir estará presente em uma posterior publicação integral da Declaração de Savoy em português. Tive a honra de participar de sua tradução e apresentação. É bem verdade que essa versão chega com cerca de 150 anos de atraso. Porém, sem evitar o clichê, antes tarde do que nunca. Para conferir o original em inglês, clique aqui.


A história dos congregacionalistas (ou independentes) ingleses foi marcada por sucessivos reveses. Em meio a altos e baixos, o movimento puritano experimentou um curto período de ascendência e certa estabilidade durante o Protetorado de Oliver Cromwell (1653-1658). Cromwell liderou com destreza a unidade de cavalaria (Ironsides) do exército do Parlamento Inglês contra o exército do rei Carlos I durante a Guerra Civil de 1642. Após a execução do rei em 1649, Cromwell ganhou ascendência política e em 1653 dissolveu o parlamento republicano se tornando, efetivamente, um ditador militar, com o título de Lord Protector. Título que manteve até sua morte em 1658.

Cromwell tinha convicções congregacionalistas. Devido a suas convicções, ele promoveu um sensível fortalecimento do protestantismo inglês. Em um de seus atos, ele instituiu uma comissão de examinadores para avaliar a capacidade dos aspirantes ao ministério. Isto contribuiu diretamente para a formação de pregadores capazes e sérios que enchiam a Inglaterra. Nas palavras de Philip Schaff: “Em sua política externa, Cromwell foi o mais destemido protetor do protestantismo e da liberdade religiosa que a Inglaterra já produziu” (Creeds of Christendom, V. I, p. 744). O governo de Cromwell foi marcado pela tolerância religiosa. No entanto, é preciso ressaltar que essa tolerância era parcial. Incluía em seu bojo apenas o puritanismo e algumas facções protestantes consideradas genuínas, enquanto cerrava os olhos para os romanistas, socinianos e episcopais.

A idéia de se organizar uma confissão de fé que trouxesse uma relativa uniformidade ao movimento puritano independente da Inglaterra surge neste momento de favorecimento político do congregacionalismo. A princípio, Cromwell reluta com essa idéia. Porém, pouco antes de sua morte ele anuncia seu consentimento. O passo seguinte foi dado pelo secretário do Conselho de Estado que convocou todas as igrejas congregacionais de Londres e seus arredores para se reunirem no Palácio de Savoy. A Conferência foi realizada durante os dias 20 de Setembro e 12 de Outubro de 1658, em reuniões diárias, contando com a presença de cerca de duzentos delegados de cento e vinte congregações.

Um de seus líderes mais destacados era John Owen, considerado por alguns “o maior dos teólogos puritanos” (e. g., PACKER, John. Entre os gigantes de Deus, p. 87). Entretanto, a comissão de composição da Declaração de Savoy ainda reunia homens como Goodwill, Nye, Bridge, Caryl, e Greenhill. A conferência se propôs a utilizar a Confissão de Fé de Westminster, de escopo calvinista e presbiteriano, introduzindo algumas modificações de modo a substituir os elementos da eclesiologia presbiteriana por uma eclesiologia congregacional. Outras mudanças foram feitas à medida que percebiam a necessidade. O resultado foi uma confissão de fé calvinista com uma plataforma eclesiológica congregacional.

Após quase 153 anos de congregacionalismo em terras tupiniquins, finalmente é apresentada ao povo congregacional brasileiro uma tradução de sua mais antiga e importante confissão de fé, a Declaração de Savoy de Fé e Ordem. O nome se deve à sua associação histórica com o Palácio de Savoy, no Strand, Londres, onde foram sediadas as várias reuniões da comissão responsável por sua elaboração.

A Declaração de Savoy vem a lume em tempo oportuno. Quero destacar apenas dois de seus benefícios. Um geral e outro particular.

Primeiro, de modo geral, uma confissão de fé como a Declaração de Savoy vem realçar a importância da verdade proposicional das Escrituras Sagradas em um tempo de confusão epistemológica. O pós-modernismo trouxe em seu arcabouço filosófico os conceitos de relativismo e pluralismo. Para o homem pós-moderno, não existem absolutos. Uma vez que a verdade é subjetiva e individual, a tolerância é a atitude ideal.

Mais uma vez, a igreja se vê em um momento histórico onde não consegue filtrar o que absorve do meio onde está inserida. O pensamento pós-moderno tem invadido os arraiais protestantes e sua influência é sentida em várias frentes. A tolerância almejada não significa apenas respeitar o diferente, mas celebrar a diferença como algo bom e necessário diante de uma realidade multifacetada. No Brasil, o protestantismo tem sido capaz de dialogar amigavelmente com os mais diferentes sistemas teológicos e filosóficos. Práticas pagãs, misticismo católico medieval, Teologia da Prosperidade, são alguns dos elementos desse protestantismo sincrético e tolerante.

Nossa única regra de fé e prática é a Bíblia. No entanto, as confissões de fé, entendidas como elaborações teológicas de homens comprometidos com as Escrituras Sagradas, apontam para as verdades fundamentais do Cristianismo reveladas nas Escrituras, se opondo frontalmente ao conceito pós-moderno de verdade. Expondo as doutrinas bíblicas como verdades proposicionais reveladas e absolutas, elas anulam a possibilidade de uma tolerância fruto da falta de convicções. A adoção de um manual básico de teologia, como Savoy, permite a conservação da sã doutrina e sua defesa ante modismos teológicos.

Segundo, de modo mais particular, a Declaração de Savoy traz a possibilidade de se colocar como a base sobre a qual é possível produzir uma maior uniformidade denominacional. No Brasil, é praticamente impossível pintar um quadro realista do congregacionalismo como denominação. Há muito perdemos a nossa identidade devido à falta de uniformidade teológica que, conseqüentemente, gerou diferentes manifestações litúrgicas conflitantes com os princípios congregacionalistas. Quem são os congregacionais brasileiros? O que eles pensam? Quais são seus fundamentos doutrinários? Não há resposta. Em algum momento, perdemos o fio histórico que nos liga aos congregacionais ingleses. Talvez, um século e meio de desatenção à nossa principal confissão de fé nos forneça alguma pista do que aconteceu. A Declaração de Savoy em português vem suprir essa deficiência e, esperamos em Deus, nos estimular a começar a reconstrução de nossa identidade.


Sola Scriptura.