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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Uma Declaração de Amor

Abaixo segue um texto que escrevi e li para minha igreja (mediante um vídeo) por ocasião dos seu 55º aniversário, cujas celebrações se deram nos dias 24-26 de junho.

Vivemos dias em que a palavra igreja já não tem a mesma importância que antigamente. Há quem diga até que não precisamos da “igreja”. Afinal, ela seria apenas uma instituição humana poluída; dominada por homens e instrumento alienador. É possível e, quem sabe, até melhor, diriam eles, ser cristão em casa, sem engajamento em alguma igreja local. Talvez algum trabalho ou contribuição em instituições para-eclesiásticas; mas igreja, não, não é importante.

No entanto, esse é um lamentável engano. Não é possível viver sem a igreja. Não é possível cristianismo sem igreja. Seria como um espírito sem corpo: incompleto, indefinido, sem vida.

Por isso eu venho reafirmar o meu amor pela igreja. Eu a amo com todo o apreço e respeito do meu coração. Amo-a por várias razões.

Amo-a por ela ser uma instituição divina, não humana. O Pai, o Filho e o Santo Espírito a conceberam na mais divina e perfeita assembleia realizada ainda antes da fundação do mundo. O próprio Deus é o arquiteto e construtor da igreja. A promessa de Cristo que diz: “eu edificarei a MINHA igreja, e a portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18) permanece viva e produzindo vida. É óbvio, nós sabemos, ele não se referia a um edifício de tijolos e concreto, mas a um “edifício espiritual” (1 Pe 2.5), o lugar da habitação do Espírito Santo, constituído de pedras vivas, a raça eleita, a nação santa, o povo de propriedade exclusiva de Deus.

Eu amo a igreja porque foi por ela que o Filho de Deus se fez homem e se entregou à morte na cruz do Calvário. Ela é tão preciosa aos olhos de Deus que para institui-la, o Pai entregou o que havia de mais precioso no universo, o próprio Filho. Por amor à igreja, Deus sacrificou o seu tudo. Paulo ensinou que os “maridos devem amar a sua mulher, como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela”. Quase é possível escutar o Senhor Jesus dizendo: “ame a mim, ame a minha igreja”. Como é possível amar a Cristo e não amar aquilo que ele mais ama? Como desprezar aquilo pelo o qual o Senhor tanto lutou, chorou, trabalhou, amou e sacrificou? Como amar a igreja e não sacrificar algo por ela. Aliás, como é possível dissociar amor de sacrifício? Como é possível amar sem sacrificar?

Eu amo a igreja porque ela é a minha mãe. Fui gerado em seu útero. Em seu ventre, fui concebido para a vida eterna. Em seu seio, conheci o amor de Cristo. Foi na vivência da igreja que experimentei as primeiras expressões do amor de Cristo através de pessoas que cuidaram de mim, que me ensinaram os primeiros passos na caminhada com Cristo e estenderam a mão quando tropecei; irmãos e irmãs que me encorajaram quando fracassei, riram comigo em momentos felizes e choraram quando a dor apertava e o sofrimento parecia insofrível; eles me incentivaram e me fortaleceram com seus abraços e palavras de sabedoria divina. Este amor experimento até hoje. E tudo isso seria impossível sem a igreja.

É verdade, ela tem suas falhas. Ela é imperfeita assim como todas as coisas cá embaixo, nesse mundo ainda caído. Às vezes, ela nos decepciona – mas quem se decepciona que já não tenha também decepcionado? –, sua alegria e vigor desfalecem, seu fervor arrefece, sua energia apaixonante esfria e a escuridão do pecado anuvia sua atmosfera. Mas ainda assim ela continua sendo a “noiva de Cristo”. Ele jamais desiste dela, seu amor jamais vacila. Ela continua sendo o seu corpo, a expressão terrena da realidade celeste, mais preciosa que o ouro, a prata ou pedras preciosas, comprada por preço, o precioso sangue do Cordeiro de Deus. “Ame a mim, ame a minha igreja”, diria o Senhor.
 
Por tudo isso e muito mais, reafirmo o meu amor pela igreja.

E de modo especial, nesse momento festivo tão importante para todos nós, quero reafirmar o meu amor peculiar pela Igreja Evangélica Congregacional de Boa Viagem-Ce. A minha mãe espiritual. Onde há 13 anos conheci o amor de Cristo, a quem me apeguei para nunca mais largar. Em vocês, meu rebanho, eu encontro uma família, carinho, apreço, segurança e cuidado. Com vocês tenho aprendido a amar, a cuidar, a acertar, a perseverar; tenho também conhecido meus erros e falhas e com eles aprendido através de palavras diretas e amorosas de irmãos e irmãs que estão sempre prontos a expor-me a mim mesmo com a intensão de me ver acertando. Por tudo isso, recebam minha gratidão e amor.

Oro com as palavras de Paulo:

Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria, dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz.  (Col 1:9-12)

Ao pastor Josafá, meu pastor e amigo, e a todo esse rebanho maravilhoso de Cristo, parabéns a NÓS por mais um ano abençoando a terra onde o Senhor nos plantou. Parabéns pelo 55º ano de vida!

“O Senhor é bom, e as suas misericórdias duram para sempre!”.

domingo, 22 de maio de 2011

A Esperança que não Morre

Um dos mais conhecidos e antigos chavões da língua portuguesa reza que a “esperança é a última que morre”. Sempre que ouço o clichê, automaticamente me vem à mente o seguinte questionamento: “se é possível que a esperança morra, como ela pode me trazer, de fato, alguma esperança?”. Como é possível chamar de esperança algo que, de alguma maneira, corre o risco de desvanecer? Sei que parece preciosismo, mas, o fato é que o problema não fica apenas no reino das palavras. A ideia popular de “esperança” realmente está aquém do sentido maior do qual o termo se reveste para aqueles que conhecem e experimentam a esperança divina, conforme revelada e reafirmada nas Escrituras como uma característica distintiva dos seguidores de Cristo.

O conceito bíblico de “esperança” é antagonicamente diferente daquilo que o termo significa hoje. No contexto escriturístico, “esperança” pode carregar um de dois sentidos: ela pode ser objetiva, referindo-se ao conteúdo ou objeto no qual a esperança é fixada (e.g., Gl 5.5; Tt 2.13), ou subjetiva, referindo-se à atitude pessoal de um indivíduo (e.g. Rm 4.18; 8.24).

Em seu primeiro sentido, o objetivo, o Novo Testamento aponta para Cristo como o próprio conteúdo da esperança, assim como todas as promessas do Evangelho, especialmente as de caráter escatológico (e.g., Rm 8.24; 12.12; 15.13; Ef 2.12). Com este sentido em mente, Paulo escreve a Tito no verso 13 do capítulo 2, dizendo: “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”. Com essas palavras, Paulo revela o conteúdo da esperança cristã, ou seja, Cristo, e a maior ênfase neotestamentária sobre o conteúdo da esperança cristã, a saber, o Segundo Advento do Senhor (ou simplesmente Parousia). Esse é basicamente o sentido objetivo do termo.

Por outro lado, a esperança bíblica também é uma atitude cristã. Hoffmann a define como segue:

"A esperança neotestamentária é um “esperar por” e uma “expectação” pelo Senhor como nosso Salvador, que envolve paciência, disciplina e confiança. Esperar é ser motivado pelo alvo à frente, aguardando nesse movimento em direção ao alvo. Ela demonstra seu caráter vivo pela perseverança que emprega enquanto espera [...] ao suportar com paciência a tensão entre o agora, enquanto caminhamos (no tempo presente) [...] e a nossa vida futura (cf. Rm 8,25; 1 Ts 1.3). Este esperar é algo ativo, pois envolve uma vida vitoriosa. Embora a espera possa ser dolorosa, isto também pode ser considerado positivamente como um “trabalho de parto” que anuncia um “novo nascimento” (Mt 24.8). Portanto, todos os que esperam são confortados e confiantes (2 Co 5.8; 2 Ts 2.16; 1 Ts 4.18)". HOFFMANN, E. in NIDNTT. Op. Cit. Vol. 2. p. 243-4.

Tal conceito é o oposto do conceito popular de esperança, de uma boa, porém incerta, expectativa pelo futuro. Nesse sentido, movimentos de paz esperam por um futuro sem guerras, o agricultor tem a esperança de um bom inverno e uma mãe deseja um bom futuro para o filho. Em todos esses exemplos, esperança não passa de um bom sentimento, um bom desejo, contudo, desprovido de um fundamento seguro que lhe garanta a certeza do que se espera e geralmente carregando uma boa dose de incerteza de que o que se espera tornar-se-á realidade.

A esperança cristã, por outro lado, não é emocionalmente condicionada ou dependente de situações externas. Não brota da própria natureza humana. Ela é um dom da graça de Deus proporcionada através de Cristo (2 Ts 2.16; cf. 1 Tm 1.1; Cl 1.23, 27). Sua base, portanto, é cristológica e teológica, no sentido pleno da palavra. Sendo um dom da graça de Deus, somente os regenerados a possuem (1 Pe 1.3), tendo sido chamados para experimentá-la em unidade (Ef 4.4). Ela é uma certeza firme de que o que se espera é real, mesmo não podendo contemplar o seu objeto no presente.  Daí sua conexão estreita com fé (cf. Hb 11.1). O cristão não espera por algo que ainda não existe, mas por algo que já é realidade, porém reservada para revelar-se no futuro – embora experimente já no tempo presente através da fé e da esperança as primícias do que será plenamente revelado no futuro. Como uma “expectação”, a esperança cristã traz para o presente a certeza futura e, embora não seja emocionalmente condicionada, ela proporciona sentimentos de paz, conforto e segurança traduzidos em uma atitude cristã diante das vicissitudes da vida.

Ela é a certeza de coisas reais, embora não visíveis no presente, alicerçada no sólido fundamento do caráter de Deus. O autor aos Hebreus fala da plena “certeza da esperança” (Hb 6.11) que é tal como a “âncora da alma, segura e firme” (v. 19). Tal esperança é ainda classificada como uma “melhor esperança” (7.19).

A esperança cristã é uma confiante expectação das promessas do Evangelho. Sua certeza brota da base sobre a qual está alicerçada, ou seja, é preciso entendê-la como fundamentada na “obrigação” moral de Deus (Hb 6.9-20). O autor aos hebreus fala da “plena certeza da esperança” (v. 11).  Tal certeza baseia-se no caráter justo (v.10) e fidedigno de Deus (vv. 18-20; cf. Nm 23.19) que não pode mentir ou voltar atrás. Por serem promessas feitas pelo próprio Deus, o cristão pode depositar toda sua confiança de que cada uma delas será plenamente cumprida em seu tempo.

A esperança cristã é uma certeza que jamais morre. Ainda que tudo passe, morra ou desapareça, a promessa que recebemos é a de que durante toda a nossa caminha terrena, em meio às lutas e sofrimentos, o próprio Cristo estaria conosco todos os dias (Mt 28.20), não para nos livrar das fornalhas da vida, mas tomando acento em cada uma delas ao nosso lado para suprir-nos com a graça e poder necessários para vencermos. E por fim, no grande dia de seu retorno, tal esperança encontrará seu gozo final, sua consumação, seu clímax, ao receber das mãos do Redentor a coroa da vida tão ansiosamente expectada ao longo da jornada (cf. 1 Pe 3-9; Tg 1.12).

A esperança cristã, indubitavelmente, jamais morrerá.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Carta Aberta sobre a Corrupção da Política Brasileira

Tenho sido ao longo de minha breve vida um ardoroso defensor e entusiasta da democracia. Entendo que este é o melhor sistema presentemente possível à nossa raça. Ela nivela a todos e impede que uns se coloquem acima de outros como autocratas ou modernos caudilhos. Mais do que isso, como brasileiro, aprecio e celebro a liberdade que minha democracia – ainda infante – me proporciona. Os direitos de ir e vir, de expressar-me e publicar minhas ideologias e opiniões, garantidos por nossa Constituição, são-me de vital valor.

No entanto, encontro-me atualmente estarrecido diante dos abusos e desrespeitos à democracia e à dignidade do Estado brasileiro. Vivemos uma época de espanto e pesar. Diante de tantas evidências irrefutáveis, repudio categoricamente o fisiologismo político brasileiro, o nepotismo, o manuseio gatuno de meu dinheiro e do de outros milhões de trabalhadores honestos que pagam impostos para alimentar a conta bancária de uma corja de políticos inescrupulosos e falsificadores da democracia, a “simonia” de cargos públicos, o uso deslavado da máquina estatal em benefício próprio, encabeçado pelo atual partido político no poder, abrindo, assim, as portas para os grampos ilegais e quebra de sigilos que na verdade significam a quebra da democracia e dos direitos que a Constituição nos garante – e pior, sem nenhum pudor, sem culpados e, obviamente, sem conseqüências, a não ser para os brasileiros violados e para uma Constituição agonizante, desprezada justamente por aqueles que têm o encargo de zelar por seu cumprimento ilibado. Diante de tanto desrespeito, vejo-me em dias semelhantes aos dos juízes, quando “não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25) – com a diferença de que aqui temos um “rei”.

Como se isso fosse pouco, defronto-me ainda com a iminência de ter o meu caro e constitucional direito de liberdade cerceado em benefício de uma minoria, constituída de brasileiros como eu, que intenta criminalizar o meu direito de expressão. Porque é isso que acontecerá se (talvez, quando) projetos como a PL122 e PNDH3 forem aprovados pelo congresso nacional. Criar-se-á uma casta de brasileiros superior, com privilégios e direitos superiores aos dos demais cidadãos, que não condiz com um estado democrático. Entendo que quando a liberdade for assim cerceada, a democracia já não passará de um conceito ocidental obsoleto, ainda nem amadurecido no Brasil e já na iminência de um fim prematuro.

Lamento ao ver protestantes ombreados com aqueles que tripudiam sobre a moral cristã, partidários de ideologias escusas e inertes diante de uma realidade que, se não é possível mudar, é plenamente possível denunciar e diferenciar. Como um servo de Jesus Cristo e ministro do evangelho, não posso me calar nem muito menos consentir com este estado generalizado de corrupção. Por isso, declaro publicamente o meu repúdio a estes políticos e suas práticas iníquas.

Que o Senhor ajude essa nação.

Pr. Diego dy Carlos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Qual é a Surpresa?

O texto que segue é da lavra do meu amigo Dr. D. B. Riker, reitor do Seminário Teológico Batista Equatorial em Belém-PA . É uma nota sobre o vídeo do pastor batista Paschoal Piragine Jr. que tem corrido a internet há alguns dias. Tanto as palavras do Pr. Piragine quanto as do Dr. Riker merecem nossa atenção e ponderação. Para conferir o vídeo, clique aqui.


"Tenho lido diversas opiniões relativas a um vídeo lançado na internet, que basicamente trata da forma como a Esquerda Brasileira vem se posicionando em relação a alguns valores cristãos. O pivô de tudo isso parece ser o ''Plano Nacional de Direitos Humanos'' & PL 122!  Minha pergunta: por que estes projetos têm surpreendido alguns cristãos?"

"O fato de que alguns recantos cristãos reagem com surpresa à ação da Esquerda me causa estranheza. Qual o motivo da surpresa de nossos queridos? Por que razão os cristãos se surpreendem? Não estaríamos nós diante do óbvio? O que nos ensina a história? Meu professor de História da Igreja, Dr Timothy George, dizia que "a história é o laboratório da experiência humana". Ora, sendo isto verdade, qual é a performance da Esquerda--quando levada às últimas consequências--em relação à Igreja? De que maneira Fidel Castro tem tratado a Igreja no curso de sua barbárica ditadura do "paredón"? Qual o tratamento que a China, de Mao em diante, tem dado à Igreja, senão brutal supressão? Qual foi a atitude dos Bolsheviks na Russia tão logo se viram no poder? Só a título de exemplo (e exemplos poderiam ser multiplicados ad nauseam): 8 mil clérigos assassinados, obliteração de casamento (voltaram atrás por causa do ônus para o Estado), confiscagem de propriedades eclesiásticas, proibição de educação religiosa aos filhos, et cetera. Sendo a-teísta a matriz religiosa da Esquerda, o que se pode esperar? Noutras palavras, sendo a raiz filosófica de confissão ateísta, que frutos podem daí advir? Há uma profunda e irredutível hostilidade da mesma em relação ao Cristianismo: isto é fato histórico irrefutável!"

"Notem bem a que me refiro, e a que não me refiro. De modo algum nego as conquistas da Esquerda no plano social e os galardões daí provenientes: eu acredito que poucos disputam tal fato! A mesma tem tentado promover uma melhoria às classes menos favorecidas, e este fato é de todo louvável. Por sinal, o Cristianismo diz respeito NECESSARIAMENTE tanto ao corpo quanto a alma; tanto ao "agora" quanto ao "porvir". Portanto, o mesmo não pode olvidar ambos aspectos humanos. Meu vetor não é ''Cristianismo > Esquerda'', e sim ''Esquerda > Cristianismo''. Ou seja, não estou lidando com a questão de como o Cristianismo deve tratar a Esquerda, e sim o reverso.  Aqui eu ouso afirmar que nem Flávio Julianus (331-363 A.D.), durante a tentativa do reavivamento pagão, foi tão hostíl ao Cristianismo como a ideologia em pauta tem sido."

"No Brasil, a Esquerda ainda vai pelo meio do caminho; ou seja, ainda está ganhando espaço. Todavia, o que se observa no PNDH/PL 122 é a consequência lógica da matriz daqueles que a propõem. Noutras palavras, embora muitos dos que labutam dentro deste perfil idelógico discordem de alguns pontos da matriz, a tendência do "cerne" da mesma é "florecer". Qual, então, é a surpresa?"



Soli Deo gloria.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Silêncio: o esconderijo de um covarde

Todo covarde precisa de um lugar seguro para se esconder. Seu coração pusilânime um impele ao alto das rochas, à fortaleza de concreto, aos ombros dos corajosos. Seu poder de decisão é escravo de sua covardia. Somente aquelas que o mantém em sua zona de conforto e segurança são tomadas, e somente após meticulosa análise da situação. Ao contrário da anedota, um homem covarde vivo vale muito menos que um homem corajoso morto. Pois por mais breve que seja a vida dos corajosos, são eles que mudam a história. De todos os esconderijos onde um covarde costuma esconder-se, há um que de todos, é o mais sórdido e danoso, o silêncio.

Quando Pilatos recebeu o Mestre das mãos dos invejosos líderes judeus, ele sabia, ainda que deficientemente, quem Jesus era. No mínimo ele sabia que ali estava um réu escancaradamente inocente. Bastava uma palavra sua, uma ordem, um movimento de mãos, e Jesus seria solto. No entanto, esta palavra, a ordem, o movimento de mãos, exigia uma dose mínima de coragem. Ele era o juiz. A decisão cabia somente a ele. Alguma coisa ele tinha que dizer. Foi então que preferiu o silêncio, na esperança de que sua responsabilidade fosse dividida com outros, na esperança de não ter sua posição confortável tomada. No farisaico engano de imaginar que a omissão não poderia ser um ato de injustiça, preferiu o silencio diante dos gritos da impiedade. Lavar as mãos foi mesquinho, sujo e covarde.

Em Provérbios 31.8, lemos: Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Os covardes gostam de pensar que a situação não tem nada que ver com eles, afinal, não foram eles os causadores ativos. Quase podemos ouvi-los indagando: Acaso sou eu tutor do meu irmão? “Sim”, responderia Deus. “Abre a boca!”, diria o sábio. Os servos de Deus são chamados a combater a injustiça com ousadia, em todos os níveis de relacionamentos da vida – pois a injustiça é a mesma e uma só em qualquer situação. Devem se posicionar ao lado da equidade. Devem se envolver, assumir a responsabilidade. Se preferir, devem comprar uma briga que sempre pertence a eles. Afinal, somos filhos do Deus Justo, logo, nossa batalha é travada no campo da injustiça.

Ninguém jamais viu o Mestre ver o mal e se calar. Certa vez, Jesus desafiou os fariseus: É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la? Mas eles ficaram em silêncio. Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada (Mc 3.4,5). O silêncio denunciou a covardia e a injustiça daqueles homens, cujos corações estavam petrificados. Jesus se indignou, Jesus se condoeu.

Diante da injustiça, Jesus mantém-se indignado e condoído enquanto muitos de seus servos se calam e dormem com a consciência tranquila. Não podemos nos calar diante da injustiça. Mesmo que isso nos custe a vida, a injustiça não combina com a nova natureza que compartilhamos com o Senhor.

O silêncio é a voz mais eloquente e cruel da injustiça. Tortura, decepciona, é indiferente e mata a alma dos injustiçados.

Que sejamos a voz de Deus em um mundo tomado pelo barulho da injustiça.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Língua de um Assassino

A língua é a arma mais perniciosa e letal que o ser humano jamais poderia criar. É a mais danosa arma de um assassino. Quando não mata, mutila e deixa cicatrizes permanentes na alma da vítima, geralmente indefesa. O sábio realça essa verdade ao afirmar que “a morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto” (Pv 18.2; cf. 15.4). Portanto, ela pode ser usada para o bem ou para o mal; para gerar vida ou para tirá-la; para curar ou para enfermar. Tudo depende da intenção e sabedoria de quem a usa: “Alguém há cuja tagarelice é como pontas de espada, mas a língua dos sábios é medicina” (Pv. 12.18).

O Senhor Jesus ensinou a mesma coisa ao comunicar aos fariseus a interpretação correta e mais profunda do sexto mandamento (“não matarás”) no Sermão da Montanha (Mt 5.21-26). Enquanto aqueles mantinham convenientemente um padrão ético superficial com suas interpretações casuísticas dos mandamentos, o Mestre lhes ensinou que era possível assassinar o próximo sem levantar um dedo contra ele, apenas com sentimento se ódio e palavras insultuosas (cf. Mt 5.22). Os fariseus não entendiam que para Deus, que sonda as motivações do coração, “pensamentos são atos”, utilizando o preciso insight de João Calvino.

Tiago escreveu que a língua “é mal incontido, carregado de veneno mortífero” (Tg 3.8). Quem pode escapar de seus ardis? Quem pode sair ileso de seus ataques? Ai daquele que cair na língua do perverso. Davi experimentou o seu poder e clamou a Deus, dizendo: “Esconde-me da conspiração dos malfeitores e do tumulto dos que praticam a iniqüidade, os quais afiam a língua como espada e apontam, quais flechas, palavras amargas, para, às ocultas, atingirem o íntegro; contra ele disparam repentinamente e não temem” (Sl 64.2-4).

Jesus afirmou que Satanás foi homicida desde o início (Jo 8.44). Isso deveria nos fazer perguntar a quem satanás assassinou. Quem teve seu sangue derramado pelas mãos de Lúcifer no princípio? A resposta é simples: ninguém. Satanás não tirou efetivamente a vida de ninguém. Não o vemos investindo contra Eva empunhando uma espada ou coisa do tipo. No entanto, com suas mentiras travestidas de verdades, utilizando-se de palavras sutis e ardilosas, ele trouxe morte espiritual a humanidade e todas as conseqüências que conhecemos muito bem. Sua única arma foi a língua.

Talvez você nunca chegue a derramar o sangue de alguém. Talvez você nunca chegue nem mesmo a empunhar uma arma. No entanto, lembre-se que é possível matar o próximo com palavras. As fofocas e calúnias podem matar a moral, idoneidade, reputação, nome, auto-estima, sonhos, valores e ideologias daqueles que, às vezes, nem ao menos sabem que estão sob ataque. Talvez não haja pior assassinato do que o psicológico e moral. Quando alguém tem sua moral e seus princípios solapados e arruinados na sociedade ou grupo ao qual pertence pelas calúnias de línguas malignas e indomáveis. Neste ato, o “assassino” demonstra com clareza suas semelhanças com o primeiro homicida.

Não seja um agente de satanás! Mantenha sua língua sob controle usando-a sempre para abençoar.

Soli Deo Gloria.

sábado, 15 de maio de 2010

Cuidado com Seus Atos!

"Um ato momentâneo de descuido pode levar a uma vida inteira de choro". Esta é uma verdade presente em todas as esferas da vida humana. Em um acesso de ira, um homem ceifa a vida do seu amigo e toda a sua vida mudará. Em um momento de descuido, a mãe esquece o seu bebê dentro de um carro com as janelas fechadas sob o escaldante sol meridiano e sua vida jamais será a mesma. Em um lapso momentâneo de irresponsabilidade, o jovem atleta avança o sinal vermelho em uma avenida movimentada e vê todo o seu futuro ligado a uma cadeira de rodas. Um só ato com conseqüências irremediáveis.

Na esfera espiritual, o fenômeno é o mesmo. Em um ato momentâneo de descuido, o primeiro casal pecou contra Deus e viu todo o futuro da raça humana condenada à danação eterna. Um só pecado, concebido em um só instante, foi suficiente para uma condenação de proporções eternas. Não raramente encontramos pessoas questionando a justiça de tal penalidade. “Como algo tão momentâneo pode acarretar em uma penalidade tão severa? Afinal, o pecado não é infinito. Esta condenação não pode ser justa!”, dizem. No entanto, quem pensa desta maneira jamais parou para pensar seriamente sobre a justiça de Deus e a terrível natureza do pecado.

O pecado não é meramente um desvio moral ou uma doença psíquica, como nos quer fazer acreditar a moderna psicologia. O pecado é transgressão, violação da lei de Deus, rebelião e hostilidade contra a soberania de Deus, a negação de sua santidade e autoridade (Cf. 1 Jo 3.4); de fato, pecado constitui rebelião contra a própria existência de Deus. Sendo justo e reto (Dt 32.4), o Soberano reage necessariamente contra o pecado. Assim, a punição é uma exigência da santidade e justiça de Deus. Os pecadores “...sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder...” (1 Ts 1.9).

É verdade que o pecado é finito, no sentido de que é cometido por criaturas finitas por um determinado período de tempo. No entanto, uma vez que ele é a transgressão da lei de Deus que, por sua vez, é a expressão da sua própria natureza perfeita e, portanto, eterna, as conseqüências do pecado são igualmente eternas, na mesma proporção da infinitude da Majestade Eterna, contra quem todo pecado é cometido. Neste sentido o pecado é infinito, sim. E, portanto, a única punição justa para ele deve ser a punição eterna. O padrão da punição do pecado não é sua extensão temporal, mas sua natureza intrínseca que transgride contra o Deus infinito. Daí um só pecado ter sido suficiente para a punição eterna de toda a raça humana.

A justiça de Deus reage contra o pecado lançando o pecador empedernido na punição do inferno, onde o sofrimento jamais terá fim (Mt 25.41). Este é o lugar reservado para todos os que continuarem vivendo sob a suserania do pecado. Outro ponto relevante para toda esta questão da justiça da punição foi aventada por Agostinho. Ele lembra que a questão a ser considerada aqui não é tanto a que diz respeito à “duração do ato pecaminoso”, diz ele, como “a vontade do pecador que é tal que desejaria sempre pecar se fosse possível” (The City of God, XXI, 11). Agostinho está apenas refletindo o ensino de Jesus de que “todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). O pecador não deseja fazer outra coisa senão pecar. Se ele tivesse oportunidade de pecar eternamente ele o faria. Creio que parte da revolta do homem contra Deus está ligada à sua mortalidade. Há uma revolta luciferiana escondida no coração de todo homem, o qual desejaria ser eterno com a finalidade de pecar eternamente. Pensando desta maneira, é possível entender que a punição do pecado é perfeitamente justa.

É preciso compreender que pecado nunca é apenas um deslize irrelevante. Por "menor" que você o considere sempre será uma ofensa horrível contra o Deus eterno. Não flerte com o pecado. Ele não terá piedade em lhe acompanhar até os portões do Lago de Fogo eterno. Eu lhe desafio a olhar com seriedade para a sua própria alma por alguns instantes. Agora, avalie com sinceridade e veja se você é capaz de dizer que Deus é realmente injusto em visitar o pecador, não meramente com punição temporal, mas também com a punição eterna. Isto é entre você e Ele.

Soli Deo Gloria.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Jesus não se Empolga com Multidões

Ninguém jamais falou como Jesus (cf. Jo 7.46). Suas palavras não testemunhavam apenas uma oratória impecável. Elas traduziam a autoridade de uma vida sem pecados. Unidos aos milagres que realizava, seus discursos atraiam multidões que se reuniam à sua volta. A turba o seguia por regiões áridas e quentes, sem o menor conforto de nossos velozes meios de transportes e auditórios climatizados. É exatamente este o cenário que encontramos em Cafarnaum, em um episódio registrado por João, no capítulo 6 de seu evangelho.

Parece que temos aqui um exemplo de oportunidade ideal para qualquer evangelista e pregador: um palanque sobre o qual pregar e uma multidão ansiosa para ouvir e seguir os passos do líder bem ali, diante dos seus olhos. Fico imaginando a atitude de líderes evangélicos oportunistas de nossos dias em uma situação como essa. Muitos deles estão sempre à procura de seguidores e pessoas interessadas em abarrotar templos e, consequentemente, suas contas bancárias. Nessa ânsia, o ensangüentado Evangelho de Cristo se transforma em matéria prima a movimentar a poderosa indústria da fé. Com uma multidão ávida como a que estava diante de Jesus seria possível fundar uma grande igreja, ou melhor, uma “mega-igreja”. Nossa! Jesus não poderia perder essa oportunidade ímpar. Era sua chance.

Porém, nosso Senhor jamais se impressiona com multidões e muito menos com pessoas meramente “interessadas”. Se Jesus fosse um pregador moderno mediano, talvez aproveitasse a oportunidade para negociar o evangelho ajustando-o ao interesse dos ouvintes. Assim, ele poderia atraí-los e, no mínino, conseguir um bom número de “interessados” ou os chamados “amigos do evangelho”. Contrariando a tendência moderna, à frente de uma multidão de interessados Jesus “engrossou o caldo” e anunciou o mais puro e duro Evangelho: o Evangelho da Cruz! Ele deixou claro que para segui-lo era preciso participar de seu corpo e sangue (Jo 6.53-58). Era preciso pagar o preço da cruz, que não se satisfaz com menos do que a própria vida. Ao final de seu discurso, Jesus tem diante de si não mais uma multidão interessada em lhe ouvir, porém uma multidão assustada e desanimada.

Essa reação certamente desanimaria muitos líderes modernos. Ao invés de agregar aquelas pessoas, O Senhor as afasta com uma mensagem dura e antipática. Contrariados, murmuram: “duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (Jo 6.60). Ao ouvir a reclamação deles, o Mestre dá um passo adiante e recrudesce ainda mais o seu discurso ao ponto de “muitos de seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (Jo 6.66). E mais, demonstrando total segurança do que estava fazendo, Jesus ainda desafia os doze apóstolos a aproveitarem a oportunidade e irem embora com os demais. Por que Jesus foi tão duro? Por que ele não amenizou a mensagem para conquistar esses interessados?

A resposta é que Jesus não tem o mínimo interesse em pessoas que não queiram se comprometer com Ele. É por isso que Ele não se empolga com multidões! Em Lucas 9.57-62 Jesus põe à prova aqueles que diziam que queriam segui-lo mostrando-lhes a natureza abnegada e exclusiva do discipulado. Quando o jovem rico aparece com a melhor das intenções, Jesus também não se empolga e o prova para revelar sua indisposição em renunciar seus ídolos (seus bens) e se comprometer a viver apenas do Salvador. Em Lucas 14.25-33, o Mestre nos dá mais uma mostra de que não tem o mínimo interesse em se relacionar com pessoas descomprometidas. Mais uma vez diante de “grandes multidões”, Ele reafirma que se eles não renunciassem à suas próprias vidas e tomassem a cruz de Cristo sobre seus ombros, não poderiam ser seus discípulos. A expressão “não pode ser meu discípulo” aparece três vezes nesse pequeno discurso de Jesus (cf. vv. 26, 27 e 33). Definitivamente, ele não se interessa por pessoas que não queiram se comprometer com ele na vida e na morte.

Nem todos podem ser discípulos de Jesus. Não se iluda com a idéia de um cristianismo sem Cruz; ou de uma cruz sem morte; ou de uma morte sem dor. É verdade que a alegria que temos em Cristo Jesus é plena e suficiente; porém vivenciada em meio às dores de um crucificado. À semelhança de Jesus, o caminho para a glória passa inevitavelmente pelo Calvário. Somente aqueles que decidem se comprometer com Ele em sua cruz são recebidos em sua glória.

E você, porventura não quer também ir embora?

Soli Deo Gloria.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Não perca seu tempo lendo a Bíblia!*

A pior maneira de perder seu tempo é lendo a Bíblia sem proveito. Mas é o que muitos crentes fazem. Sabem que devem ler a Palavra de Deus todos os dias, e aderem a essa disciplina com mais ou menos firmeza. Mas a leitura pouco lhes aproveita, o que já vira um desestímulo à fidelidade na prática constante da leitura. Quantos irão começar o Ano Novo com a resolução de ler a Bíblia – e acabarão desistindo no meio de Levítico?

Há dois fatores a considerar. Primeiro, a programação das leituras: quais os capítulos que vou ler hoje? Segundo: como ler esses capítulos com proveito?

É esta segunda pergunta que quero abordar. Sobre a primeira, dou apenas duas sugestões. Não é boa ideia começar em Gênesis e caminhar até Apocalipse. Sua alimentação espiritual deve ser mais variada. É melhor ler algo do Antigo e algo do Novo Testamento cada dia. Ou, se não do Novo, pelo menos dos Salmos. Se quiser ler a Bíblia toda em um ano, então a porção diária terá dois capítulos do A.T. e um do N.T. Quando chegar ao fim do N.T., leia dois Salmos (ou um Salmo e um capítulo de Provérbios) em vez do capítulo do N.T. Alternativamente, uma outra sugestão que recebi de um pastor: no início do ano, coloque três marcadores em sua Bíblia, no início dos livros de Gênesis, Jó e Mateus. Cada dia, vai lendo nestes três lugares até virar a página (será, normalmente, duas páginas de leitura em cada lugar). Quando chegar ao fim de uma parte, pode voltar ao começo dela. Meu amigo pastor usa uma Bíblia diferente cada ano neste exercício.

Mas vamos à questão mais fundamental: como garantir que o tempo investido nessas leituras não seja tempo perdido? Aqui a própria Bíblia pode nos servir de orientação. A Epístola aos Hebreus foi escrita para ensinar (entre outras coisas) como ler o Antigo Testamento como livro cristão. Sim, o A.T. é um livro cristão! Como diz Paulo: "Tudo quanto outrora foi escrito, para o nosso ensino foi escrito" (Rm 15.4). Isso inclui as partes mais difíceis do A.T., como Levítico! E Hebreus trabalha estas partes também. Veja Hebreus 4.12-13: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas."

Estas palavras vêm ao final de uma exposição do Salmo 95.7b-11: é a parte mais difícil do Salmo, que muitas vezes é omitida numa leitura na igreja. A exposição começa em Hb 3.7; era bom abrir sua Bíblia agora neste trecho para acompanhar as três lições que o autor nos dá.

1. A palavra é viva; portanto, devemos lê-la com a viva esperança de ouvir nela a voz de Deus. Observe como o texto é apresentado em Hb 3.7: "Como diz o Espírito Santo". O verbo é tempo presente: não "disse", mas "diz". O escritor humano fica em segundo plano; Deus está falando! E o mesmo Espírito está presente para abrir nossos ouvidos. Nunca devemos abrir a Bíblia sem pedir a iluminação do Espírito; é grande presunção imaginar que podemos entendê-la sem esta iluminação. E ela é sempre atual. Veja como o escritor insiste na palavra "Hoje" (3.13, 15; 4.7).

2. A palavra corta, penetra, discerne; portanto, devemos lê-la abrindo-nos para que ela mexa no mais íntimo do nosso ser, permitindo que Deus faça sua cirurgia espiritual em nossa vida, e querendo que a palavra nos transforme como Ele quer. Mesmo que seja doloroso, é sempre proveitoso deixar que a palavra nos questione, desafie e corrija. Para facilitar, podemos fazer umas perguntas ao longo da leitura da Palavra:

(a) Há uma ordem que devo obedecer? No texto em pauta, sim, há uma ordem logo no v. 8: "Não endureçais o vosso coração". E o escritor vai trabalhando essa ordem logo no início de sua exposição, em 3.12-14, considerando os passos práticos: a ajuda que precisamos buscar e dar, as dificuldades que temos de enfrentar, o encorajamento que pode nos animar. E termina a exposição no mesmo estilo prático: "Esforcemo-nos, pois...." (4.11).

(b) Há um exemplo que devo imitar – ou evitar, caso seja um exemplo mau, como é de fato aqui? No final de 4.11 ele fala do "exemplo de desobediência". Ele trabalha o exemplo em 3.16-19 e 4.1-2, analisando os resultados da conduta retratada, buscando a raiz do problema – incredulidade (3.19) – e aplicando à situação dos leitores (e nós) (4.1-2): será que somos tão diferentes daqueles israelitas como devemos ser?

(c) Há uma promessa que devo reclamar para minha vida? A primeira leitura do Salmo não parece promissora: só há o juramento negativo: "Não entrarão no meu descanso" (3.11). Mas o escritor percebe que esse negativo pode se converter em positivo em nosso caso, com ele afirma em 4.1: "sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus," e apóia essa interpretação com o argumento de 4.3-10. E a promessa nos convida a examinar a nossa vida: estou desfrutando desta bênção? Ou há uma condição a cumprir para recebê-la? Que diferença ela faz (ou faria) na minha vida?

3. Finalmente, a palavra de Deus requer uma resposta. É esta a força de 4.13, mormente as palavras finais: "aquele a quem temos de prestar contas." A Bíblia é a carta de amor endereçada a nós da parte do Pai, carta a ser recebida como preciosa, guardada no coração – e respondida! Depois de ouvir de Deus, precisamos falar a Ele, agradecer as bênçãos prometidas, louvar Aquele que se revela a nós, e pedir Sua graça para obedecer. E os versículos finais do cap. 4 nos lembram que esta graça será achada "em ocasião oportuna", nem antes nem depois do momento em que precisamos dela. Felizes aqueles que reconhecem que sempre precisam!

Sola Scriptura

* Esse texto é de autoria do pastor e teólogo Glenn T. Every-Clayton, um amigo e conselheiro.

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Não tenho tempo!"

Recentemente um pastor querido compartilhava comigo uma dificuldade que vem enfrentando em sua igreja nestes últimos anos: a falta de tempo do seu povo. Infelizmente, este problema não é só dele, é meu também. Na verdade, de quase todos – senão todos – os que vivem sob os ditames dos tempos pós-modernos. Ninguém mais tem tempo para nada!

De cara surgem alguns bons questionamentos para nossa reflexão. Devemos perguntar sobre quem administra o nosso tempo, nós ou as pressões de um tempo de extrema correria ativista? Para quem é o nosso tempo, para o Reino dos Céus ou para o mundo? É possível achar um equilíbrio? Finalmente, pensando nesta pandemia, devemos perguntar se o problema é mesmo insolúvel e natural de nosso tempo. Ou seja, é isso mesmo, devemos nos adaptar a essa nova realidade ou há alguma coisa errada conosco precisando de reparos?

Penso que a raiz do problema se encontra na falta de perspectiva bíblica da vida cristã. O cristão é alguém que vive em duas realidades concomitantemente: a natural e a sobrenatural. Ou seja, ao mesmo tempo em que participa da história da vida no tempo e no espaço, ele também está participando da realidade da vida espiritual, e isso, repito, ao mesmo tempo em que se desenrola a sequência normal e os relacionamentos espaço/temporais do presente (cf. 1 Tm 5.21; Ef 2.6-10). Ele é cidadão de duas pátrias nas quais vive simultaneamente no tempo presente. Não é de hoje que o cristão tem sido bombardeado pela visão naturalista de mundo que enxerga apenas a dimensão natural tomando-a como o todo. Observando apenas por este prisma, sua percepção se torna deficiente e ele jamais conseguirá fazer uma interpretação fiel da realidade, pois só possui uma parte do todo.

Preso a uma realidade naturalista, resta ao cristão coadunar-se ao sistema que lhe é proposto. O capitalismo com sua “lei do mais forte” (devidamente reformulada) o pressiona em direção a uma vida de sucesso – ou seja, dinheiro, muito dinheiro! Ele se lança à tarefa de acumular tesouros sobre a terra (ver Mt 6.19-21). Péssima escolha! No emaranhado de causas e efeitos peculiares do programa capitalista ele jamais conseguirá muito sucesso sem um esforço redobrado e uma carga horária de trabalho multiplicada. Então, ele depara-se com o ativismo – a quantidade de trabalho é sempre maior que o tempo disponível. Ele se tornou um escravo do trabalho e prisioneiro do pouco tempo que possui (mesmo havendo a mesma quantidade de tempo para todos). Nesta correria frenética, não resta tempo para nada mais!

Como se vê, o sistema mundano está normatizando o estilo de vida do cristão. Nessa corrida louca, ele perdeu o foco celeste. Ele não tem mais tempo de olhar para o autor e consumador da sua fé (Hb 12.2). Ele vive o hoje com os olhos no amanhã, mas tudo por aqui mesmo, ao alcance dos olhos (e do dinheiro, claro). Quem administra seu tempo? O mundo! Ele que diz quando e se terei algum tempinho vago para sair com o grupo de evangelização da igreja. Para quem é o seu tempo? Quando os olhos estão fixos na realidade terrena e os esforços visam o acúmulo de bens sobre a terra, a resposta é clara: para este mundo! Todo o tempo que Deus lhe concede é aplicado justamente onde fomos proibidos de fazê-lo.

Nesse frenesi, a família foi relegada a segundo plano (quando não a terceiro). Não se tem tempo para conversar com os filhos (a solução é pagar uma babá para os mais novos e comprar muitos, mas muitos presentes para compensar a ausência com os mais velhos). Sair com a esposa para um jantar romântico virou uma lembrança saudosa (geralmente por parte da esposa) da época de namoro. Nesse tempo de correria, a igreja é vivida a la catolicismo romano – apenas aos domingos – como um programa religioso pré-agendado. Não se tem mais tempo para vigílias, reuniões de oração (que perda de tempo! É melhor agir que orar), culto de doutrina, reunião de professores da EBD, etc. Na era do virtual, os amigos deixaram de ser “amigos” e se tornaram “contatos” – do MSN, Orkut, Facebook, etc. Estamos em meio a um processo de despersonalização – nem importa tanto nosso RG, mais importante é o IP. Não se tem mais tempo para “gastar” em conversas agradáveis e descomprometidas com nossos velhos amigos. Isso tudo sem falar na devoção diária, na meditação, leitura da Palavra, coisas simples e essenciais para a vida cristã.

Não quero dizer que devemos largar tudo e abraçar a causa essênia. Não! O que está faltando é uma definição clara de nossas prioridades. No capítulo 3 da segunda epístola de Pedro lemos que todas as coisas, céu e terra, em breve, serão extintas (3.10). Ou seja, todo o tesouro acumulado sobre a terra passará em breve com todas as demais coisas. Vivemos em um mundo efêmero, com prazo de validade já se esgotando. A conclusão de Pedro é: “Visto que todas as coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus” (3.11, 12a). Penso nisso como um estímulo e uma base sólida para a definição de prioridades. Todas as coisas passarão abrasadas por um fogo inexorável. No entanto, existe algo que nem mesmo o fogo do inferno será capaz de consumir, a alma. Pedro apresenta a dimensão material e a espiritual. Ele bem poderia dizer: “Que tolice gastar tanto tempo com o material visto que em breve passará. Antes, vocês deveriam preocupar-se com o que realmente é importante, algo que é eterno, a vossa alma”.

Prioridades! Quando readquirirmos uma perspectiva cristã de vida, estaremos aptos a percebermos que nossa prioridade deve ser o que possui maior valor, ou seja, o eterno sobre o temporal. Quando a frase “não tenho tempo”, referindo-se à vida celeste, se torna uma constante na vida de um cristão é bem possível que ele tenha perdido completamente o prazer e os benefícios da cidadania celestial.

Que Deus nos ajude.