sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um só Deus?

Nos últimos dias, tenho recebido inúmeros e-mails com as últimas notícias sobre o ”envolvimento” do cantor gospel André Valadão e seu evidente ato ecumênico ao dividir um palco com a banda católica romana Rosa de Saron. O caso tem trazido certo incômodo ao meu coração. Incômodo gerado pelo senso de responsabilidade pastoral que Deus depositou em meu coração no momento de minha vocação para o ministério. Por mais difícil que seja para alguns, desafio todos os leitores a fazerem uma análise dos fatos sem o envolvimento emocional característico de “fãs” e “entusiastas”.

Teologicamente, preocupo-me com a assertiva de que “o que nos une é maior do que o que nos separa”. Eu poderia remeter o leitor ao blog do cantor André Valadão para ler a declaração na fonte, no entanto, o Pr. André retirou o artigo do seu blog.

Essa declaração resume bem o espírito de nossa época. Levados pelas proposições pós-modernas da relativização da verdade e seu conseqüente pluralismo, parte do afetado cristianismo evangélico continua desprezando as doutrinas fundamentais da nossa fé, sacrificando-as no altar da tolerância. A ordem de Cristo na Grande Comissão é para fazermos discípulos, “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.20 – grifo meu). Cristo não nos manda negociar a verdade, ou dialogar sobre a verdade. Ele nos manda ensinar! Não nos é permitido transigir em assuntos fundamentais da fé. Outra ordem nos é dada em Judas 3b: “batalheis, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. A verdade cristã é tão verdadeira que sua dignidade exige nossa luta em seu favor e a pronta entrega de nossas vidas, caso necessário.

A essa altura alguém poderia perguntar o que, então, é essencial e o que é secundário para o cristianismo autêntico, i.é., bíblico. A história da Igreja nos mostra claramente em quê a Igreja Romana e os protestantes diferem. Os reformadores proclamaram os famosos cinco lemas que resumem o seu inconformismo: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fides e Soli Deo Gloria. Pela graça de Deus, estes homens atingiram o cerne da questão e retornaram aos princípios neotestamentários que formam o âmago da identidade da Igreja de Cristo. Se uma comunidade, corpo ou instituição não mantém esses cinco pontos em harmonia com as Escrituras Sagradas, tal grupo não pode ser considerado cristão. Estes pontos são fundamentais, afinal, se uma igreja não possui somente as Escrituras Sagradas como única fonte de autoridade inerrante e suficiente em matéria de fé e prática e não sustenta o Evangelho de Cristo somente conforme as Escrituras e tudo para a glória de Deus somente, ela possui um “outro evangelho” (cf. Gl 1.6).

Portanto, afirmo, sem hesitar, que o Deus da Igreja Romana não é o mesmo Deus das Escrituras Sagradas, porquanto aquela sustenta um Evangelho estranho às Escrituras. Os romanos diferem das Escrituras naquilo que é fundamental. Isso posto, é preciso dizer que o que nos separa da Igreja Romana é o próprio Deus verdadeiro, revelado nas Escrituras. Nossos irmãos reformadores não lutaram por picuinhas. Eles batalharam pela verdade da qual depende a identidade da Igreja de Cristo. Em termos de fé, nossa separação é irreconciliável. A tentativa de conciliar as partes é, no mínimo, fruto da ignorância de católicos e protestantes com respeito a seus próprios credos. Qualquer forma de ecumenismo exige necessariamente algum nível de apostasia.

Outra preocupação que me ocorre como resultado da primeira é com o nível doutrinário do nosso povo. O Brasil já é considerado um fenômeno em crescimento evangélico. No entanto, proporcional ao aumento quantitativo está sua falta de vigor teológico. Faltam bereianos em nosso meio – homens que foram capazes de questionar um apóstolo da estatura de Paulo e, por sua atitude, considerados nobres (At 17.10-12). No entanto, no Brasil, permanece a máxima do “plantando, tudo dá”. Qualquer movimento, pregador, cantor, escritor, igreja, etc., é logo aceito com entusiasmo – sem nenhum julgamento de seus fundamentos.

No que diz respeito ao ministério de louvor, é preciso começar repensando o que a palavra “ministério” significa. Ministério vem da palavra grega diaconia (de onde deriva o português “diaconia” e “diácono”), e significa “servir”, “servir à mesa”. Ou seja, um ministro é um servo. No Novo Testamento, este serviço pode ser realizado servindo às mesas, através da Palavra e por outros meios. Por isso falamos de “ministro da Palavra”, “ministro de louvor”, etc. Entretanto, no fim do dia, todos não passam de “servos”. Pensando em termos da música gospel no Brasil (estou pensando em termos gerais, sem especificar este ou aquele grupo/cantor e compreendendo que a graça de Deus tem mantido um remanescente fiel) alguns grupos e cantores cobram cifras exageradas por uma “apresentação”. A pergunta seria: é possível chamar de ministro alguém que cobra cerca de R$ 40.000,00 por cada “apresentação”? É certo que o trabalhador é digno de seu salário. No entanto, será que as Escrituras não estão se referindo ao sustento básico do ministro? Jesus mesmo parecia contar apenas com o alimento do dia, sem possuir muitas provisões para o dia seguinte. Sustentar um ministério é muito diferente de patrocinar o luxo de alguns mercenários que encontram no público evangélico um ávido mercado de consumo.

O caso típico de ecumenismo do Pr. André Valadão não me surpreende. Entendo isso apenas como a consequência natural de uma tendência generalizada entre os músicos evangélicos no Brasil. O gosto pelo estrelismo, fama, dinheiro, viagens, aplausos, etc., acaba traindo aquele que devia ser apenas servo.

Onde estão os bereianos? Onde estão os nobres? Julgar as palavras e o ministério dos profetas é uma ordem divina. Que o Senhor guarde o Seu povo nesses últimos dias.

Soli Deo Gloria.

De volta ao Blog


Peço desculpas aos amados leitores pela demora em postar novos textos. Estes últimos meses foram de extrema correria - os pastores sabem do que estou falando. Infelizmente, não pude conciliar todas as tarefas e precisei priorizar algumas em detrimento de outras.

No entanto, aqui estamos novamente para continuar postando nossas meditações fortuitas.

Um forte abraço a todos e obrigado pela paciência.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Apologética Final

Há alguns anos atrás o apologista cristão Francis A. Schaeffer escrevia que “a apologética final, com ajuda de defesa e apresentação racionais e lógicas da fé, é aquilo que o mundo observa no cristão individual e nos nossos relacionamentos como grupo” (SHAEFFER, p. 230). Esposando uma apologética pressuposicionalista, Schaeffer enfatiza que a defesa e exposição de nossos pressupostos necessitam manter a coerência entre a afirmação destes e a prática de suas consequências lógicas finais no nível individual e coletivo. Ou seja, de nada adianta uma defesa da fé meramente teórica. A “verdade verdadeira” do cristianismo expressa-se mediante transformação de indivíduos e seu relacionamento com a coletividade.

Schaeffer está exalando um princípio básico do cristianismo de que não há cristianismo sem vidas intransformadas. O cristianismo não é mera religião, i. é., mais uma tentativa desesperada de homens desesperados em busca da satisfação da eternidade posta em seus corações através do contato com a divindade mediante seus próprios esforços. Ele também não é mais um sistema filosófico que necessite firmar suas teses cujos efeitos provavelmente jamais deixarão o campus acadêmico para penetrar a vida real. Por esses motivos, ele não precisa de intelectuais frígidos acorrentados a suas mesas.

O cristianismo tem que ver com relacionamento. A verdade revelada de Deus fala da liberdade conferida a nós por Cristo para experimentarmos vida real com o Deus vivo (cf. Rm 9.26; 1 Ts 1.9; Hb 9.14). Esta vida com Deus é aferida por meio dos frutos. O fruto do Espírito Santo deve vicejar no indivíduo em seu relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Quando Tiago se refere à vida cristã como religião, ele sente a necessidade de adjetivá-la. Ele a chama de religião pura e sem mácula (cf. Tg 1.22-27). E como se apresenta esta religião verdadeira? Em forma de vida prática. Esta “religião” é aquela cujas crenças conduzem o indivíduo à prática! Somente quando isso acontece, é possível divulgar e defender a fé cristã diante de um mundo que está saturado de teorias (filosóficas, científicas, teológicas, etc.) e que espera muito mais daqueles que se dizem herdeiros de Cristo.

Estamos vivenciando um momento crítico na curta história do protestantismo brasileiro. É hora de despertamos do sono. Nossa geração carece tanto de uma teologia madura como de uma consequente práxis inconformista. Nossa sociedade está se enfadando com o discurso de evangélicos sem vida. É preciso aprender com a história que por mais que o mundo nos odeie, ele jamais deixará de nos honrar quando nos mostramos diferentes. Pois ao nos matar, ele nos permite honrar o nome de Cristo em um fim comum. Não há honra maior.

Penso que, mais que nunca, é preciso resgatar e fazer valer o lema: “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (Igreja Reformada Sempre se Reformando).

Soli Deo Gloria.

Referência Bibliográfica:
SHAEFFER, Francis A. O Deus que intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

sábado, 11 de julho de 2009

Oração Materialista

A oração é a atividade mais sublime da alma humana. O homem atinge seu zênite espiritual ao dobrar seus joelhos para se encontrar com Deus em oração. Ali é possível gozar por um momento aquele reencontro glorioso para o qual estamos destinados e sem o qual nossa alma jamais encontrará repouso. Agostinho foi feliz ao declarar que “fomos criados para Deus, e nossa alma não encontrará descanso enquanto não retornar para ele”. A oração tem o poder de antecipar esse retorno.

Porém, que tempos os nossos! O capitalismo e materialismo religiosos transformaram o quarto secreto (Mt 6.6) em feiras medievais e a oração em moeda de troca. A prática da oração deixou de ser um momento de adoração a Deus para se tornar um culto ao materialismo humano. Em nossos dias, as orações são extremamente consumistas e voltadas para aquele que ora, ao invés de magnificarem Aquele a quem se ora. “Seja feita a minha vontade, assim na terra como no céu” é o novo lema. “Eu”, “para mim”, “meu”, são os pronomes preferidos dos seguidores da grande religião materialista.

A oração modelo ensinada por Jesus no Sermão da Montanha (Mt 6.9-15) é um excelente exemplo de oração não-consumista. Ela está voltada essencialmente para Deus. Ela inicia com uma exaltação de Deus como Pai celestial (v. 9), prossegue com três petições que dizem respeito a Deus e sua glória (vv. 9, 10) e, só então, por último, três petições que se referem àquele que ora (vv. 11-13). É óbvio que precisamos apresentar a Deus nossas ansiedades e petições, no entanto, perceba a ordem ensinada pelo Senhor: primeiro Deus, depois o homem. E mesmo nas petições que dizem respeito ao homem percebemos uma diferença gritante entre o que o Senhor ensinou e o que ouvimos hoje. Das três petições pessoais, a primeira se refere às necessidades materiais elementares (repito, elementares) e as duas outras a realidades espirituais.

A oração cujo centro é o próprio indivíduo é parte fundamental da devoção diária de Satanás. “Seja feita a minha vontade!”; é assim que ele ora.

Soli Deo gloria.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Deuses na Terra

E “sereis como Deus”. Essas palavras foram aos ouvidos de Eva como favos de mel ao paladar. Uma isca perfeita. Discreta e desejável. Não poderíamos esperar menos de Lúcifer. Ele sabia por experiência própria o fascínio que a idéia de ser Deus podia produzir. Se um anjo poderoso e privilegiado como ele fora por ela fascinado, o que dizer de seres inferiores? Infelizmente, Eva também não resiste e sucumbe à atraente proposta de Satanás.

O desejo que levou o primeiro casal à queda é um dos legados mais nefastos da miséria humana transmitido à raça. Está incrustada em seu coração e alimenta a alma. Desde o Éden, a essência do pecado consiste na tentativa de se viver tão independente de Deus quanto possível. Consiste em quebrar qualquer amarra que prenda o indivíduo a um ser superior que “espreita” suas criaturas dia e noite. Calvino menciona um dizer antigo que diz que todo homem tem dentro de si a alma de um rei (1 Peter 5.5). O homem busca o máximo da independência de modo que possa servir e agradar somente a si mesmo.

Pecado é um estado que conduz a uma atitude de orgulho auto-exaltado. Uma tentativa perene de auto-deificação. O pecado é a imagem e semelhança de Satanás (cf. 1 Tm 3.6).

A idéia de “ser como Deus” é atraente não apenas pela possibilidade de uma independência volitiva e moral, mas também pela idéia de se extrapolar o nível do natural elevando-se ao sobrenatural ou sobre-humano. Enquanto ente sujeito às leis naturais do mundo criado, o homem está preso às amarras do tempo e da matéria. A auto-deificação expressa o desejo de se sobrepujar as limitações naturais do ser e penetrar o mundo dos “deuses”. Esta é a independência plena: a quebra de qualquer limitação natural.

Este velho desejo de “ser como Deus” está no coração da Teologia da Prosperidade. Para essa onda teológica (hesito em chamá-la de teologia - talvez alguma qualificação como “teologia de segunda”, ou “teologia espúria” seja melhor), o ser humano não pode adoecer, não pode passar por privações materiais, não pode experimentar a tristeza, não pode perder uma batalha espiritual, ou seja, o ser humano precisa “ser como Deus”.

A Teologia da Prosperidade intenta destronar o Deus Criador e colocar a criatura em seu lugar. Ela ensina aos homens a dar ordens a Deus e a determinar o que este deve ou não fazer. Com isso dizem que são mais sábios do que Deus em suas decisões. Fazem de Deus um servo que está sempre pronto para servi-los. Posso até imaginar como satanás está orgulhoso com o sucesso de uma investida tão antiga. Basta um pequeno estímulo, como a sugestão de “ser como Deus”, para o homem extravasar todo o orgulho que corre em suas veias.

E sereis como Deus”. Essa é a proposta da Teologia da Prosperidade esposada por tantos pastores midiáticos e que tem angariado tantos adeptos no Brasil e no mundo. No entanto, não há nada novo nisso tudo. Estão apenas plagiando um velho “deus” frustrado que insiste em brincar de Deus.

Soli DEO Gloria.



P.S.: Essa pequena reflexão é o extrato de um papo teológico (de um dos tópicos, ao menos) agradabilíssimo com os pastores Aureo Rodrigues, reitor do Seminário Presbiteriano de Fortaleza e José Rafael, colega de labuta na comunidade na qual ministramos.

P.S. 2: Sugiro ainda a leitura de ROMEIRO, Paulo. Super Crentes. 2ª Edição. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2007.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um Templo ou um Teatro?

"Os homens parecem nos dizer: “Não há qualquer utilidade em seguirmos o velho método, arrebatando um aqui e outro ali da grande multidão. Queremos um método mais eficaz. Esperar até que as pessoas sejam nascidas de novo e se tornem seguidores de Cristo é um processo demorado. Vamos abolir a separação que existe entre os regenerados e os não-regenerados. Venham à igreja, todos vocês, convertidos ou não-convertidos. Vocês têm bons desejos e boas resoluções: isto é suficiente; não se preocupem com mais nada. É verdade que vocês não crêem no evangelho, mas nós também não cremos nele. Se vocês crêem em alguma coisa, venham. Se vocês não crêem em nada, não se preocupem; a ‘dúvida sincera’ de vocês é muito melhor do que a fé”. Talvez o leitor diga: “Mas ninguém fala desta maneira”. É provável que eles não usem esta linguagem, porém este é o verdadeiro significado do cristianismo de nossos dias. Esta é a tendência de nossa época. Posso justificar a afirmação abrangente que acabei de fazer, utilizando a atitude de certos pastores que estão traindo astuciosamente nosso sagrado evangelho sob o pretexto de adaptá-lo a esta época progressista. O novo método consiste em incorporar o mundo à igreja e, deste modo, incluir grandes áreas em seus limites. Por meio de apresentações dramatizadas, os pastores fazem com que as casas de oração se assemelhem a teatros; transformam o culto em shows musicais e os sermões, em arengas políticas ou ensaios filosóficos.

Na verdade eles transformam o templo em teatro e os servos de Deus, em atores cujo objetivo é entreter os homens. Não é verdade que o Dia do Senhor está se tornando, cada vez mais, um dia de recreação e de ociosidade; e a Casa do Senhor, um templo pagão cheio de ídolos ou um clube social onde existe mais entusiasmo por divertimento do que o zelo de Deus? Ai de mim! Os limites estão destruídos, e as paredes, arrasadas; e para muitas pessoas não existe igreja nenhuma, exceto aquela que é uma parte do mundo; e nenhum Deus, exceto aquela força desconhecida por meio da qual operam as forças da natureza. Não me demorarei mais falando a respeito desta proposta tão deplorável".


Por Charles H. Spurgeon

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Adoração de Fachada - Amós 5.21-27

Não sou da escola positivista, mas tenho fortes motivos para acreditar que alguns acontecimentos históricos se repetem. Vivemos um tempo marcado por muitos elementos dos dias de Amós. Principalmente no que diz respeito a uma espiritualidade caracterizada por ritos pagãos cada vez mais enraizados na adoração cristã e a hipocrisia de se sacrificar a Deus em meio à indiferença social. Essas, o paganismo crescente e a injustiça social, foram duas das ênfases mais fortes da denúncia profética do boieiro que se tornou profeta.

O profeta usa verbos fortes como “aborreço”, “desprezo” (v. 21), “não me agradarei delas”, para expressar a repulsa de Deus à adoração de seu povo. O Senhor não consegue sentir o cheiro dessa adoração fingida e destituída de espírito. Ele não aceitava o sacrifico deles, uma vez que a verdadeira adoração deve começar no coração dos adoradores. Os israelitas transformaram a adoração em mero ritualismo e o faziam quase que mecanicamente. Achavam que se cumprissem as exigências externas da adoração Deus ficaria satisfeito. Porém, não adianta um sacrifício externo quando o interior está cheio de pecado (cf. Sl 51.16, 17).

Em seguida, o profeta faz duas advertências, uma negativa (v. 23) e outra positiva (v. 24). Negativamente, Deus exige que parem as expressões de adoração mais fervorosas, a música. Ele não suporta ver uma adoração fingida que se alegra em meio ao pecado. Quando tudo estava mal, esses falsos adoradores adoravam a Deus com alegria. Deus estava muito irado, a ponto de proibir algo que muito lhe agrada (cf. Sl 33.2, 3). Positivamente, Deus exige que a adoração seja acompanhada de justiça (v. 24). Sem este elemento não há verdadeira adoração. A adoração verdadeira é fruto de uma constante vida de serviço fiel e devoto a Deus, que expressa na prática aquilo que se é por dentro. O caminho percorrido pela adoração não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ela flui de um coração puro e regenerado por Deus. Aqueles que procuram adorar o nome de Deus devem ser aqueles que honram o caráter de Deus tanto em palavras como em ações.

Estou cansado de ver “cristãos” professos com suas mãos erguidas em adoração no templo enquanto na rua e nos negócios são velhacos, trapaceiros, mentirosos, subornadores, sonegadores e briguentos. Em casa, são péssimos maridos, grosseiros e desamorosos, ou péssimas esposas, rixosas e tolas, ou péssimos filhos, desobedientes e respondões, mas na companhia da igreja aparentam piedade e devoção. Não posso crer que Deus se agrade das mãos erguidas e dos clamores “apaixonados” daqueles que não se dispõem, antes, a descer à cruz de Cristo em piedade autêntica e íntima. Os escândalos dos evangélicos (seja em nível nacional ou local) se multiplicam à proporção em que esta igreja criada no berço da mídia e dos empresários da fé aumenta.

Além disso, à semelhança dos israelitas dos tempos de Amós, temos nossa própria dose de paganismo. O misticismo católico romano misturado com as crenças africanas incrustada no povo brasileiro introduziu o apresso a relíquias sagradas, superstições e os cultos que mais parecem uma expressão religiosa da umbanda ou alguma outra religião afro-brasileira. A pureza e simplicidade do culto cristão foram substituídas por elementos pagãos de modo a formar uma nova expressão religiosa sincrética. Enquanto nos perdemos nesse sincretismo, os “profetas” da terra cantam sobre a “geração do avivamento” e reúnem multidões com suas promessas de “chuvas de bênçãos”. Talvez seja mais sábio chorar clamando por misericórdia ao ouvir: “Desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer [...] Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (Am 5.21, 24).

No caso de Amós, a solução foi o cativeiro. Talvez estejamos em um nível tal que seja necessária uma ação drástica como aquela.


Que Deus nos ajude.