Nos últimos dias, tenho recebido inúmeros e-mails com as últimas notícias sobre o ”envolvimento” do cantor gospel André Valadão e seu evidente ato ecumênico ao dividir um palco com a banda católica romana Rosa de Saron. O caso tem trazido certo incômodo ao meu coração. Incômodo gerado pelo senso de responsabilidade pastoral que Deus depositou em meu coração no momento de minha vocação para o ministério. Por mais difícil que seja para alguns, desafio todos os leitores a fazerem uma análise dos fatos sem o envolvimento emocional característico de “fãs” e “entusiastas”.Teologicamente, preocupo-me com a assertiva de que “o que nos une é maior do que o que nos separa”. Eu poderia remeter o leitor ao blog do cantor André Valadão para ler a declaração na fonte, no entanto, o Pr. André retirou o artigo do seu blog.
Essa declaração resume bem o espírito de nossa época. Levados pelas proposições pós-modernas da relativização da verdade e seu conseqüente pluralismo, parte do afetado cristianismo evangélico continua desprezando as doutrinas fundamentais da nossa fé, sacrificando-as no altar da tolerância. A ordem de Cristo na Grande Comissão é para fazermos discípulos, “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.20 – grifo meu). Cristo não nos manda negociar a verdade, ou dialogar sobre a verdade. Ele nos manda ensinar! Não nos é permitido transigir em assuntos fundamentais da fé. Outra ordem nos é dada em Judas 3b: “batalheis, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. A verdade cristã é tão verdadeira que sua dignidade exige nossa luta em seu favor e a pronta entrega de nossas vidas, caso necessário.
A essa altura alguém poderia perguntar o que, então, é essencial e o que é secundário para o cristianismo autêntico, i.é., bíblico. A história da Igreja nos mostra claramente em quê a Igreja Romana e os protestantes diferem. Os reformadores proclamaram os famosos cinco lemas que resumem o seu inconformismo: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Sola Fides e Soli Deo Gloria. Pela graça de Deus, estes homens atingiram o cerne da questão e retornaram aos princípios neotestamentários que formam o âmago da identidade da Igreja de Cristo. Se uma comunidade, corpo ou instituição não mantém esses cinco pontos em harmonia com as Escrituras Sagradas, tal grupo não pode ser considerado cristão. Estes pontos são fundamentais, afinal, se uma igreja não possui somente as Escrituras Sagradas como única fonte de autoridade inerrante e suficiente em matéria de fé e prática e não sustenta o Evangelho de Cristo somente conforme as Escrituras e tudo para a glória de Deus somente, ela possui um “outro evangelho” (cf. Gl 1.6).
Portanto, afirmo, sem hesitar, que o Deus da Igreja Romana não é o mesmo Deus das Escrituras Sagradas, porquanto aquela sustenta um Evangelho estranho às Escrituras. Os romanos diferem das Escrituras naquilo que é fundamental. Isso posto, é preciso dizer que o que nos separa da Igreja Romana é o próprio Deus verdadeiro, revelado nas Escrituras. Nossos irmãos reformadores não lutaram por picuinhas. Eles batalharam pela verdade da qual depende a identidade da Igreja de Cristo. Em termos de fé, nossa separação é irreconciliável. A tentativa de conciliar as partes é, no mínimo, fruto da ignorância de católicos e protestantes com respeito a seus próprios credos. Qualquer forma de ecumenismo exige necessariamente algum nível de apostasia.
Outra preocupação que me ocorre como resultado da primeira é com o nível doutrinário do nosso povo. O Brasil já é considerado um fenômeno em crescimento evangélico. No entanto, proporcional ao aumento quantitativo está sua falta de vigor teológico. Faltam bereianos em nosso meio – homens que foram capazes de questionar um apóstolo da estatura de Paulo e, por sua atitude, considerados nobres (At 17.10-12). No entanto, no Brasil, permanece a máxima do “plantando, tudo dá”. Qualquer movimento, pregador, cantor, escritor, igreja, etc., é logo aceito com entusiasmo – sem nenhum julgamento de seus fundamentos.
No que diz respeito ao ministério de louvor, é preciso começar repensando o que a palavra “ministério” significa. Ministério vem da palavra grega diaconia (de onde deriva o português “diaconia” e “diácono”), e significa “servir”, “servir à mesa”. Ou seja, um ministro é um servo. No Novo Testamento, este serviço pode ser realizado servindo às mesas, através da Palavra e por outros meios. Por isso falamos de “ministro da Palavra”, “ministro de louvor”, etc. Entretanto, no fim do dia, todos não passam de “servos”. Pensando em termos da música gospel no Brasil (estou pensando em termos gerais, sem especificar este ou aquele grupo/cantor e compreendendo que a graça de Deus tem mantido um remanescente fiel) alguns grupos e cantores cobram cifras exageradas por uma “apresentação”. A pergunta seria: é possível chamar de ministro alguém que cobra cerca de R$ 40.000,00 por cada “apresentação”? É certo que o trabalhador é digno de seu salário. No entanto, será que as Escrituras não estão se referindo ao sustento básico do ministro? Jesus mesmo parecia contar apenas com o alimento do dia, sem possuir muitas provisões para o dia seguinte. Sustentar um ministério é muito diferente de patrocinar o luxo de alguns mercenários que encontram no público evangélico um ávido mercado de consumo.
O caso típico de ecumenismo do Pr. André Valadão não me surpreende. Entendo isso apenas como a consequência natural de uma tendência generalizada entre os músicos evangélicos no Brasil. O gosto pelo estrelismo, fama, dinheiro, viagens, aplausos, etc., acaba traindo aquele que devia ser apenas servo.
Onde estão os bereianos? Onde estão os nobres? Julgar as palavras e o ministério dos profetas é uma ordem divina. Que o Senhor guarde o Seu povo nesses últimos dias.
Soli Deo Gloria.










